sábado, 1 de novembro de 2008

Panificadora Exemplar

[seu Martin, garçon há mais de 60 anos]


1.

Alice fez tatuagens há tanto tempo que elas estão desbotando. Um dia desses eu arrumo. Arruma nada. É mentira. Os pensamentos de Alice também estão perdendo a cor. O diamante está virando um vidro NF. Um dia desses eu vou chegar na Panificadora Exemplar e vou pedir. Um café preto num desses copos NF do diamante de vidro, por favor! E quando eu terminar de tomar o último gole, sabe o quê? Vou quebrar e dizer que foi por acidente. Talvez até guarde um pedacinho bem pequeno pra fazer uma cena quando ela quiser ir embora. Ai, não! Cicatrizes não desbotam. E ela se atreveu a falar mal de Hemingway sem ter lido uma linha de Hemingway. Vocês imaginem com que tipo eu estou lidando. Vocês imaginam? Alice sabe que mesmo com as tatuagens dela em franco estado de desaparecimento há uma fila de adeptos. Alice é auto-convicta. Me disse com um olhar bem sério: Eu acho que Ernest não é um cara tão bom assim. O meu ódio era um peixe fora d´água. Debatendo-se. Esmaguei-o nas minhas mãos sem que ela percebesse.


2.

Quando eu vi Silvia a primeira vez achei que ela era assustadoramente feia. E me assustei. As mãos de Silvia pareciam mais vivas do que todo o resto que também era Sílvia. E Silvia me falou efusivamente de um romance que acabara de ler não tinha nem uma hora. O romance estava esperneando dentro dela louco de vontade de sair. A emoção de Silvia vibrava como as cordas de um relógio da mais alta qualidade. A trama a possuía como um espírito furioso e eu estava assistindo concentradamente àquele exorcismo. Ela era uma personagem emparedada, você compreende?! Silvia me falava. Sim, é claro que eu compreendia. Silvia era uma giganta. Se ela quisesse poderia me esganar com aquelas mãos enormes. A voz saía feito chuvarada que desaba do nada. E as mãos, um vento indeciso seguindo sem lucidez os volteios da voz. Senti tanta comoção que convidei Silvia para tomar um café comigo na Panificadora Exemplar.

3.

Juliana trabalha na Panificadora Exemplar e usa todo o dinheiro em livros da Imago. Juliana faz psicologia e é bissexual. Eu a vejo e penso no medo que me davam aquelas histórias de meninas que nasciam com dois sexos. Ou seriam meninos? As especulações na escola eram tantas que chegavam ao absurdo. Sempre achava que um dos sexos tinha que ficar à esquerda ou direita. No lugar onde vão os bolsos da frente das calças U.S. Top. Eu tinha uma calça U.S Top e quando enfiava as mãos nos bolsos da frente pensava que se eu fosse um desses seres que nascem com dois sexos eu estaria naquele momento acolhendo numa das mãos essa pequena anormalidade. Acho que foi por essa época que comecei a sentir compaixão pela humanidade. O fato é que Juliana tem pernas atualizadíssimas. E usa saias. E quando ela vai dar o troco faz como as ciganas quando decifram o futuro. Olha bem no fundo dos nossos olhos, morde os lábios e deposita uma a uma as moedas na palma da mão do freguês. Eu jogo elas pra o fundo dos bolsos de minha jeans e mantenho as mãos fechadas até em casa. Juliana é má e freudiana.

4.

Ela me disse: "Quero comer Álvaro não por ele ser inteligente. Mas pelo cheiro de neném que ele tem embaixo do saco. Tenho certeza de que quando ele tirar aquela cueca arrogante e os meus dedos abrirem caminho pela nuca entre os fios dos cabelos lisos e tratados com condicionador e puxar ele com força pra mim vou sentir uma tontura mortal. A minha língua vai percorrer os pensamentos mais inocentes de Álvaro. Ele vai ver. Eu vou comer Álvaro de manhã no Passeio Público. E se a vaca daquela pipoqueira nos denunciar pra patrulha furo todos os fundos de saquinhos de papel do mundo pra ela nunca mais ter estrutura pra ser feliz junto aos pombos. Eu Conheço a rotina de Álvaro. Eu sei que ele lê Virgínia Woolf escondido. Eu sei porque eu já vi um dia na Panificadora Exemplar quando ele pediu um misto frio com pão d´água na manteiga e um pingado mais pra escuro, ele sentou e abriu o livro As ondas. E depois emocionado ele arrematou tudo com um Yakult. Álvaro é o meu biscoito da sorte." Ela me disse.

5.

Susana combinou comigo às 3h00 da tarde na Panificadora Exemplar. Susana disse que iria sem calcinha. Fiquei curioso para saber a cor da calcinha que ela deixou de vestir pois disso dependeria nosso destino como amantes. Se fosse amarela, considerando que eu sou de libra e estávamos no começo de junho, certamente ela iria me trair. Principalmente porque Susana é de gêmeos e, não é surpresa pra ninguém, gêmeos são puladores de cerca. Se a calcinha que Susana deixou de vestir fosse preta mataríamos todas as aulas de linguística, alugaríamos o VHS Terra em Transe no terceiro andar da biblioteca - setor de multimeios - e iríamos pra salinha de projeção fumar um dédalus e trepar à luz da interpretação perfeita de Jardel Filho. Se a calcinha que Susana deixou de vestir fosse vermelha. Se a calcinha que Susana deixou de vestir fosse vermelha. Se a calcinha que Susana deixou de vestir fosse vermelha.

6.

Adriano acreditava em discos voadores. Mas acho que ele estava zoando comigo. Sempre que íamos à Panificadora Exemplar ele usava os pires pra me explicar teorias alucinantes sobre ovnis. Por exemplo, quando Caetano Veloso esteve em Londres e compôs aquela música que diz go looking for fly soucers in the sky, tinha tudo a ver. Está entendendo, cara?! Tu-do-a-ver! E mesmo que ele não me explicasse o que a ver, eu participava de forma intensa da discussão pois as pessoas que estavam ali a nossa volta acreditavam realmente que falávamos de coisas extraordinárias, dada a ênfase com que Adriano expunha todas as suas teorias extra-terrestres. Foi assim que ele seduziu a Marjorie das Ciências Sociais. Eles trepavam ali atrás daquelas caixas de alta tensão perto do postinho da CEF. Em época de amora ele chegava pra aula de Literatura Brasileira I com a Herig toda pintada de roxo. A gente já sabia. Não deu outra, a Marjorie engravidou e o Adriano sumiu do mapa. Todos os amigos sustentaram que ele havia sido abduzido. O pequeno Carl Sagan deve ter hoje uns onze anos.

10 comentários:

Fabiano Vianna disse...

Tatuagens desbotando.Isto sempre acontece e as pessoas protelam. Hahaha. Safada a suzana. Ao invés de se deixar levar pela idéia dela ir sem calcinha, o escritor ficou imaginando que cor seria a calcinha que ela não foi. Genial!

Anônimo disse...

rasas palavras,
mas está está muito bom.

com um pequeno detalhe, walmor chagas não atua no terra em transe, ah!, mas deve ter sido o efeito do psi!... olha a boca.

roda gigante da minha vida!: "Se a calcinha que Susana deixou de vestir fosse vermelha. Se a calcinha que Susana deixou de vestir fosse vermelha. Se a calcinha que Susana deixou de vestir fosse vermelha."

evoé,
giulianoquase.

Anônimo disse...

sim, tem razão, Jardel Filho, meu pai tinha ciúme dele com a minha mãe; mas não entendi o efeito do psi....?

Anônimo disse...

ah, entendi o efeito do psi...

n.

Anônimo disse...

entendeu?

- psiu, não fale, é proibido...
- proibir?

qualquer dia uma sessãozinha lá no multimeios?

=]

aaaaaaaah!
garoto mais atrevido

giulianoquase.

Anônimo disse...

hahaha!!!!


opa, combinado, eu levo a susana

Anna Toledo disse...

maravilhoso.

Anônimo disse...

Ô, Anna!
Cê gostou! Que bom!
:D

Rodrigo M. Freire disse...

segue um caminho tão inusitado. gosto dos detalhes curva de sua prosa, dos ângulos novos. Digo, muito abreviamente, que fiz excelente leitura.

Fiquei com vontade de lhe dar um abraço!

Parabéns!

Rebecca Loise disse...

uau