terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Mímica

[réplica de Laocoonte tocada por cegos]

i.

Para desconforto do mímico, antes que entrasse com o seu show alguém lhe cochichou ao ouvido que todos os que estavam na platéia eram cegos. Considerando as pernas do artista, seu tamanho, agilidade e força, para se chegar da coxia ao centro do palco eram bastantes cinco passos . Sendo que o primeiro teria sido um salto pairando com o pé esquerdo no chão. Os dois seguintes, freadas curtas como prolongamento do pulo da entrada. O quarto e o quinto passos, uma reviravolta com a direita arrastando estridente o solado no piso; outra reviravolta com a esquerda, localizando-o na posição central. E em cheio flagrado pelos cegos, que mapeavam com o mover de todo o rosto e os nulos olhos abertos a figura do mímico.

ii.

Não pôde usar de pronto o truque de arrastar uma enorme barra de ferro invisível. Os cegos não relacionariam sua roupa de presidiário à narrativa que os seus gestos iriam expressar. Num súbito, veio-lhe a idéia de despir-se ali, na frente daqueles inusitados olhares. Mirou os pés. Poderia começar. Deu um espirro alto, para ajudar na marcação. Uns cegos riram. Alguns disseram: Saúde! Caiu com o peso do corpo no chão, mãos espalmadas e palmilhas no piso à toda. Começou. Descalçou um dos pés. Jogou o sapato bem longe de si. Alguns cegos das primeiras fileiras recuaram o corpo e não conseguiram sorrir. Tirou o outro calçado e deste fez correr o fio do cadarço com força para que seus expectaditos não duvidassem do que estava ocorrendo ali diante de seus ouvidos de ver.

iii.
Agora era a vez das calças. Como estivessem apertadas, seus gemidos orientavam a obstinação por despir-se da peça. Algumas moças cegas baixavam a vista e erguiam as orelhas. O mímico, percebendo a reação, abusou do som do estalido do elástico em suas coxas. E rápido livrou-se de uma das pernas. E logo depois outra. Andou por um lado e outro do palco. Coçou os pêlos da bunda. Brincou de fugir do canhão de luz. Isso era lá com ele. Os cegos não entenderam. Ergueu o corpo todo pra frente segurando o arco das costas com as palmas das mãos. Deslizou-as devagar em movimentos cruzados pela curva da roliça barriga. Agarrou uma e outra ponta da camisa e com um movimento rápido ergueu pelo tronco e pelos braços e cabeça seu disfarce de presidiário.

iv.

Segurando firme com a mão direita, usou a camisa de chicote e brincou com a platéia. Narizes em riste sorviam o odor do corpo do mímico que era lançado em quentes bafos da boca de cena ao arco da platéia lotada de cegos. O mímico respirou fundo, terminando com um assobio longo. Sem gargalhar. Pigarreou duas vezes de modo cínico e partiu para o grand finale. Tirou a samba-canção branca de bolinhas azuis. Virou para os cegos e ofereceu-lhes um flatulento bunda-lelê. O número por completo excedeu os 4' e 33". E durante todo o tempo o mímico manteve-se virtuosamente limpo e vestido.


3 comentários:

Anônimo disse...

olá, nara,
cecília está produzindo em série? tá louco, meu...
e essa capinha do cecília não é um cachimbo?!

giulianoquase.

Ceci n´est ... disse...

livro novo, haha


n.

Lindsey Rocha disse...

bom. bem bom.

vou recrutar meu pessoal e ver o que posso fazer.

o triste é se a cegueira for branca, daí o iluminador vai se foder.