sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Em Curitiba, 16h00

[carta aos amigos que partiram]


Hey, ho!


O que rolou por essas pedras?
No meio do caminho brita, lirismo e birita
Estaria apto a abordar aquele assunto defunto?
Faz tempo que nunca escrevi cartas
Mas o sintoma sente
Você sempre me pareceu, sério!, um desses beatos
com a bíblia na mão
Mas era um truque, eu conheço de longe esses tipos
Com sua roupa de brechó
Essas bandinhas de garotos sujos e suados com vocais lânguidos
E olhar sarcástico - os caras têm imitado o seu jeito
Um tédio envelhecido em tonéis de carvalho
Chegar ao J. bar e, já na entrada, novamente nada
Mas escute o som
Ainda dá tempo de se acabar na pista
A idade do coração, ninguém vai dizer
Ridículo, eu sei. Você com 26 anos
Velho demais para diversões policromáticas
Novo demais pra já ter - vamos mudar o rumo dessa conversa?
Tentado o fatal plano B, acordar no hospital e tals
O número de suicidas na família é uma coisa incrível
Nenhum deixou qualquer bilhete
Por isso tenho que escrever pelos meus mortos mudos
Agora, você! Sumir assim, sem sequer me apresentar a sua irmã
Depois de ter me jurado que ela era uma gostosa
Nem vou jamais confessar que - sim! - você me faz falta
Nessa cidade lotada de adolescentes quarentões
Meu adorável Rodka! Bebe mais... Vamos matar o tempo a machadadas
Voltar do aeroporto na hora do pôr-do-sol
Com o tupperware cheio de biscoitos de chocolate com castanhas
Especialmente feitos para alguém que não gosta de doces
- Eu não gosto de doces! E você deu uma gargalhada
Só alguém real, nada mais. Sentindo na pele o amor do mundo
Marcar um encontro na rua XV às 16h20
Pra gente ler junto o bilhete de amor que você achou
no bolsinho do casaco comprado em usados
E me dizer que anda estudando espanhol pra ir embora do país
A tarde toda perdida e a consciência largada
[ entre as pedras soltas das calçadas
Admiráveis as suas tardes
Vivendo com trocados da bondade familiar
Aquele curso de enfermagem, hahaha! E a carteirinha pra os livros
Não leio Dostoiévski nunca mais
Além de folhear - disparos juvenis - poemas mórbidos
Sair da BPP de pau duro querendo comer o mundo
Um café, por favor!
Eu ando com saudades de sua magreza assustadora, enfermeiro
A primeira vez, pensei: jamais podemos ser vistos juntos
Mas ele tão sedutor com aquele sorriso anêmico
De garoto que passou a noite procurando diversão
Arctic Monkeys é o caralho!
Hein?
Você me disse que viu as duas num desses banheiros inventados
no show da irlandesa, ai! Ela tinha ou não recebido uma santa?
Naquela hora daquela música
Vai, fala tudo! Também gosto. Mas você não acha que a idade...
A idade, meu filho. Lembra? T.S. Eliot:
Canção de amor para ... vamos, então, você e eu
E você me disse também que foi violento e delicado ao mesmo tempo
Em frente ao espelho, o rosto dela sangrou
Componha um poema no meio do cu da mulher mais amada
Sua grande mentira: Eu me recuso a falar sobre literatura
Ficamos em silêncio imitando G&B, num café chulé desses daqui
Meninos com olhar blasé. Terno e gravata.
A seriedade é necessária estritamente em rótulos de veneno
Você foi comigo naquelas lojas de perfumes caríssimos
Pra gente ver o quanto não vale a pena trabalhar sério nesse país
O ridículo de ser brasileiro letrado e envergonhado
A mocinha: Você quer sentir?
E voltamos para o café porque estava começando a chover
Eu ri e pedi um conhaque antes de perder a cabeça
Você disse que estava relendo aquele um
Lá fora, os pombos e as filas dos ônibus em revoada
Fiquei um longo tempo contemplando sua Morte em Veneza
Essa foi a última vez em que, você e eu, seguimos certas ruas

p.s: Um café, por favor

1 comentários:

Anônimo disse...

se a vida imitasse a literatura,
queria somente ouvir a mocinha.

giulianoquase.