domingo, 19 de julho de 2009

Arturo Bandini

c a p í t u l o vintee2

Achei um quarto em Temple Street, em cima de um restaurante filipino. Era dois dólares por semana, sem toalhas, lençóis ou fronhas. Peguei o quarto, sentei na cama e matutei sobre minha vida neste mundo. Por que eu estava aqui? E agora? Quem eu conhecia? nem a mim mesmo. Olhei para minhas mãos. Eram mãos delicadas de escritor, as mãos de um escritor caipira, inadequadas para trabalho pesado, incapazes de fazer frases. O que eu podia fazer? Olhei em volta do quarto, as paredes manchadas de vinho, o chão sem tapete, a janela com vista para Figueroa Street. Senti o cheiro da comida do restaurante filipino lá de baixo. Era este o fim de Arturo Bandini? Seria este o lugar onde eu morreria, neste colchão cinzento? Eu poderia jazer aqui por semanas antes que alguém me achasse. Fiquei de joelhos e rezei:
- O que eu fiz pra você, Senhor? Por que você me pune? Tudo que peço é a chance de escrever, de ter alguns amigos, de parar de correr. Dê-me paz, oh, Senhor. Conduza-me a algo que valha a pena. Faça a máquina de escrever cantar. Encontre a canção dentro de mim. Seja bom para mim, porque estou solitário.
Aquilo pareceu me inspirar. Fui até a máquina de escrever e sentei. Uma parede cinzenta se ergueu. Empurrei minha cadeira para trás e fui para a rua. Entrei no meu carro e dei uma volta.
Eu tenho problemas para dormir no quartinho, embora tivesse comprado lençóis e cobertores. O problema era a miséria do dia, a infecundidade do trabalho permanecia no quarto durante a noite. De manhã ela ainda estava lá, e eu ia para a rua de novo. Então eu lembrava de um dos axiomas de Edgington: "Quando se está emperrado, pé na estrada".

(FANTE, John. Sonhos de Bunker Hill. Porto Alegre.LP&M, 2003)

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