segunda-feira, 13 de julho de 2009

No terraço, hoje à tarde

- Meus olhos estão gastos
- Os óculos, a senhora quer dizer.
- Meus olhos.
- Gastos?
- É. Gastos.
- De tanto ver? Como as pupilas fatigadas?
- De ver pouco e sempre o mesmo. É assim que se gastam os olhos.
- Mas o desejo de ver mais não é inesgotável? Não pensa assim?
- Os olhos se gastam antes do desejo. O desejo faz gastarem-se os olhos. É precipitado. Como uma pintura falsa.
- Toda pintura é falsa. Quer dizer, o que não é natureza... Ai, não sei mais. Me confundo. Mas talvez entenda.
- O desejo desenha traços e joga tintas, volumes, texturas. O desejo é ansioso e tétrico. Os olhos buscam ansiosos e tétricos o que o desejo quer ver e nada enxergam. Pois nada se revela novo. Somente o que já foi esboçado. Não quero mais ver desse modo. Recuso-me. E se então surgir o desejo depois do que os olhos virem não será uma pintura falsa.
- Os olhos não sabem ver sem interesse. E eles mesmos produzem interesse ao ver. Não sei qual a melhor idade para sentir. Talvez eu esteja perdendo tempo. Não sei. Transito por lugares feios que ainda se deixam enfeitar de beleza. Mas é muito sutil.
- Beleza é forma e manifestação. Quando os olhos se gastam, houve só forma e manifestação vazia.
- Tenho medo das palavras que me fazem ver. Talvez por isso minhas palavras é que estejam gastas.
- Para não temer as palavras procure compreender os olhos e os ouvidos que as tocam. Observe. Forma e manifestação.

8 comentários:

tatiana disse...

Bom saber que você ainda me lê. =)
E sim, eu também continuo te lendo, embora esteja silente há muito. É que na maioria das vezes não sei bem o que dizer e apenas fico pensativa e/ou emocionada, como agora. Minhas palavras também devem estar gastas.

PS: lembrar-me-ei das dicas, 'tava mesmo precisada de orientações.

Anônimo disse...

não vale chorar.

Anônimo disse...

Oh, q bonito!

Hey now, hey now
Don't dream it's over
Hey now, hey now
When the world comes in



=D


n.

nd disse...

Gosto particularmente e muitas vezes do que escreve. É sóbria e segura, o segredo. E diz coisas que não se dizem mas que se ouvem. É para que servem os olhos. Escolher. Eleger. Os olhos que percebem e interpretam são tudo. Ouvimos neles, com eles, dizem.

Anônimo disse...

Desculpe a sinceridade, mas isso mais parece um texto acadêmico do que algo lírico ou literário.

Anônimo disse...

imagina, sinceridade é o que mais precisamos no mundo; além disso, o literário é por excelência o campo dos discursos em que se pode agregar todos os tipos de textos, inclusive o acadêmico - vide Bakhtin, problemas de literatura e de estética...blá. O literário não se restringe ao lírico. Se é que me entende. Um exemplo, A montanha mágica, do Thomas Mann, alguns capítulos são todos dedicados a especulações sobre o tempo. Um ensaio muito bom, aliás, em que pode ser visto isso - após o romance ter sido devidamente lido, é o "Thomas Mann", do crítico Anatol Rosenfeld.

Agora eu também lhe peço desculpas, pq parece que estou me incomodando com o seu comentário por ele - supostamente - ter desmerecido o que escrevi. Não é isso. O que me incomoda é o desprezo que muitos "escritores" têm ao que eles chamam de "acadêmico". Aliás, com pouco conhecimento de causa, uma vez que opõem o literário ao acadêmico. O que, para mim, é uma irresponsabilidade.

Enfim, o que não é do humano é que não vale á literatura - porque não poderia ser pelo humano registrado.

Mas deixemos de lado isso e voltemos para vida antes que nos chegue a morte ou coisa parecida. E se você é escritor(a), boa sorte com os seus escritos. Deixe que eles falem a lingua que quiserem - ainda que pouco "lírico".

n.

Anônimo disse...

E "à esquerda..."(nd) e Tatiana, muito obrigada pelas palavras também sinceras.

que todos tenham um dia feliz e artesanal (feito com as próprias mãos e o coraçãoo).

Oh, suavidade...
Sinto-me extremamente lírica e amorosa da humanidade!!!

Viva Hefesto!
Viva os poetas todos!


Com Engenho e Arte


n.

Anônimo disse...

revisando:

BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. São Paulo, Hucitec, 1993

ai, os erros são tantos... perdoai-nos, senhor Linux

blá.blá

"A linguagem literaria é um fenomeno profundamente original, assim como a consciencia linguistica do literato que lhe eh correlata; nela, a diversidade intencional (que existe em todo dialeto vivo e fechado), torna-se plurilingue: trata-se não de uma linguagem, mas de um dialogo de linguagens" (p. 101)


n.