
Ao morrer, Antonio Stradivari deixou seu negócio para seus dois filhos, Omobono e Francesco, que nunca se casaram e passaram toda a vida adulta na casa do pai, como seus empregados e herdeiros. Continuaram por vários anos capitalizando seu nome, mas o negócio acabou soçobrando. Ele não lhes ensinara, não teria podido ensinar-lhes como se tornarem gênio. (Os instrumentos por eles construídos que pude ter nas mãos e tocar são excelentes, mas apenas isto.)
Temos aqui, então, o breve resumo da morte de uma oficina. Há quase três séculos os luthiers tentam ressuscitar esse cadáver para recuperar os segredos que Stradivari e Guarneri del Gesù levaram para o túmulo. Essa investigação sobre a originalidade teve início ainda em vida dos filhos de Stradivari. Os imitadores de Guarneri del Gesù começaram a trabalhar cerca de oitenta anos depois de sua morte, inspirados pela falsa história de que teria confeccionado seus melhores violinos na prisão. Hoje, as análises do trabalho desses mestres seguem três direções: cópias fisicamente exatas da forma dos instrumentos; análises químicas do verniz; e uma vertente fazendo o percurso inverso da lógica da sonoridade (partindo-se do princípio de que seria possível imitá-la em instrumentos que não tenham a exata aparência de um Strad ou de um Guarneri). Ainda assim, como observou o violinista Arnold Steinhardt, do Quarteto Guarneri, um músico profissional é capaz de distinguir quase instataneamente entre um original e uma cópia.
Falta nessas análises uma reconstrução das oficinas do mestre - mais exatamente, é um elemento que se perdeu irrecuperavelmente. Trata-se da absorção no conhecimento tácito, não dito nem codificado em palavras, que ocorreu nesses locais e se trasnformou em hábito, através dos milhares de gestos quotidianos que acabam configurando uma prática. O fato mais importante que sabemos a respeito da oficina de Stradivari é que ele estava presente o tempo todo, aparecendo inesperadamente em toda parte, reunindo e processando os milhares de elementos de informação que não podiam ter o mesmo significado para assistentes empenhados apenas na consecução de determinada parte. O mesmo se aplica aos laboratórios científicos dirigidos por gênios idiossincráticos; a cabeça do mestre fica cheia de informações cujo significado só ele pode alcançar. Por isso é que os segredos do físico Enrico Fermi, como grande experimentador, não podem ser compreendidos pelo exame dos detalhes de seus procedimentos laboratoriais.
Para transpor esta observação para o plano abstrato: numa oficina dominada pela individualidade e a peculiaridade do mestre, também é provável que domine o conhecimento tácito. Após sua morte, os passos, soluções e percepções por ele somados à totalidade do trabalho não podem ser recuperados; não há como pedir-lhe que tone explícito o tácito.
Teoricamente, a oficina bem gerida deve equilibrar conhecimento tácito e explícito. Os mestres devem ser insistentemente induzidos a se explicar, para expressarem o conjunto de passos e soluções que absorveram em silêncio - se pelo menos forem capazes de fazê-lo e o quiserem. Boa parte de sua autoridade deriva do fato de enxergarem o que os outros não enxergam, sabendo o que não sabem; sua autoridade torna-se manifesta em seu silêncio. Será então que estaríamos dispostos a sacrificar a qualidade dos cellos e violinos Stradivari em nome de uma oficina mais democrática?
(SENNETT, Richard. O artífice. São Paulo. Record, 2008, pp. 92 - 93)
A propósito de livros de poemas, acho que cada poema deveria vir em um livro, para que ficássemos lendo sempre o mesmo poema dentro daquele livro e pensando por muito tempo neste único poema - como uma peça exclusivíssima. Como um Stradivarius.
:P

2 comentários:
"A propósito de livros de poemas, acho que cada poema deveria vir em um livro, para que ficássemos lendo sempre o mesmo poema dentro daquele livro e pensando por muito tempo neste único poema - como uma peça exclusivíssima. Como um Stradivarius."
essa é uma ótima proposta!
rs,
oh, yeah!
=D
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