quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Novos Rostos da Ficção Francesa. Uma Antologia: Editora Sulina

Fragmento (trecho da autora Claire Marin):

Alguns silêncios entre os suspiros, os gemidos, os choros ou os gritos, de dor ou de raiva. Uma vida intensa. Corpos nus, em exibição. O meu, ao menos. Um relato sem pudor.
A maioria daqueles que viram meu corpo nu tocaram-no sem o menor desejo. Ele foi manipulado, examinado, operado. O que ainda resta de chocante em expor a vida de um sujeito doente? A indecência imposta pela doença contaminou toda sua existência.
Não é mais possível abalar-se com a exposição de um corpo aberto e fechado inúmeras vezes. Renuncia-se ao artifício de uma carne coberta e preservada. Ele não é nada além de alguma coisa que pode ser penetrada, que pode ser atravessada sem que sejamos tocados. Meu corpo não é um santuário, ele não me pertence, não tenho nem poder, nem direito sobre ele. A intimidade é proibida ao doente. Essa experiência não deixa incólume. Relatá-la não é exatamente violentar-se. O mal já está feito.


http://contemplareumatoviolento.blogspot.com/


1 comentários:

. disse...

este trecho é maravilhoso, não?

fiquei feliz de encontrá-lo aqui.

só uma coisa, não sou a tradutora, sou a revisora (infelizmente, um dia eu chego lá... na tradução).

bisou.