domingo, 1 de janeiro de 2012

Lima Barreto: Brasileiro.

Na triste manhã de Verão, um homem já alquebrado - os olhos pouco brilhantes e, mesmo assim, atentos - observa, através de uma janela do Hospício Nacional de Alienados, a Enseada de Botafogo brilhando sob o céu fuliginoso e baixo. Estamos em 1920 e o contemplador diante da janela, nascido e vivendo há quase 39 anos no Rio de janeiro, sabe ser dia de São Sebastião. Os músculos do rosto pardo por vezes se contraem; tremem um pouco as extremidades dos dedos bem modelados. Acha-se no Hospício desde 25 de dezembro, interno como indigente, depois de vagar toda a noite da véspera nas ruas dos subúrbios, sem dinheiro, procurando uma delegacia: perseguiam-no visões fantásticas e queria apresentar queixa à polícia. Não é a primeira vez que sofre a experiência do internamento por loucura e ele promete a si mesmo, com ênfase, que esta será a última. O Hospício, bem entendido, não lhe parece intolerável; e a falta que lhe faz sua própria casa é relativa. Anos antes, chegou mesmo a escrever no Diário que, sem constância, mantém desde a juventude: "A minha casa me aborrece". Também as relações com a família não se pode dizer que sejam das mais estimulantes. Quando, em 1909, envia um exemplar do seu primeiro livro publicado à irmã, recebe um bilhete curto e neutro, sem uma expressão, por mais discreta, de alegria ou de encorajamento: comentário algum sobre a leitura. Assim, se ele promete a si mesmo não voltar ao Hospício é antes de tudo por delicadeza: "Estou incomodando muito os outros, inclusive os meus parentes." Caso volte, mata-se, eis o que decide.
Sua loucura é em geral atribuída à dipsomania. Tal conclusão inteiramente verdadeira? Bebe muito e mais de uma vez o lamenta no Diário. Pode-se, entretanto, supor que as suas crises tenham origem num conflito violento e sem esperança com o mundo, ou, precisamente, com o país onde nasceu, onde vive e onde vai morrer mais ou menos obscuro. Comprova essa obscuridade a anotação feita por um médico no Livro de Observações do Hospício: "Indivíduo de cultura intelectual, diz-se escritor, tendo já quatro romances editados." Os quatro romances a que tão vagamente se refere o médico, classe cuja fatuidade esse louco e dipsômano vergasta com frequência em suas crônicas, são As Recordações do Escrivão Isaías Caminha, Triste Fim de Policarpo Quaresma, Numa e a Ninfa e Viada e Morte de M. J. Gonzaga de Sá.

LINS, Osman. Lima Barreto e o espaço romanesco. São Paulo. Ed. Ática, 1976.

2 comentários:

Don Suelda disse...

Olá!
Tem alguém aí?

Cadê o meu mimo de fim de ano?

Sou viciado neste site.

Anônimo disse...

Ah, Soruda! Quanta gentileza! Feliz Ano Novo pra você e pra Veríssima.

bjones

n.