terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Partindo do nada para lugar nenhum

Antes da tempestade, o velho pegou um pequeno espelho e saiu com ele pra rua onde pretendia mirar pelo reflexo os movimentos das nuvens. Desse modo, convencia-se em silêncio, poderia prever o incerto futuro daquela aldeia. Antes da tempestade, estavam os dois sentados à mesa de uma bodega. O mais novo, agarrado a um copo de vidro com bebida gelada, concentrava-se em absorver a novidade daquela tecnologia. Antes da tempestade, foi despertada pelos solavancos das portas brandindo uma sinfonia apocaliptica. Estava doente e sabia que ia morrer. Antes da tempestade, atravessou todo o pátio e, seguindo pela rodovia com os bolsos cheios de pedras, esvaziou-os à frente de uma cruz fincada à beira da estrada. "Antes da tempestade." Com os olhos fechados, repetiu a expressão como um mantra, esperando que a letra, ferida pelo sentido, vertesse alguma umidade afeita a fertilizar o deserto de sua escassez poética. Fosse o que fosse que dissessem: não respondia à altura. Antes da tempestade. Depois da tempestade. E durante... Agora, o inverno de nosso descontentamento. Um homem sozinho com um espelho. Um homem velho e um menino, em trânsito. Uma mulher que sabe que vai morrer. Um lunático perpetuando a rotina do morto. "Antes da tempestade", o escritor repetia atônito diante do sol furioso de um março.

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