quinta-feira, 30 de julho de 2009

Cemitério Boa Esperança

1.
Na capela três do Cemitério Boa Esperança está sendo velado o corpo do Sr. Amâncio Os familiares revezam-se aos pares, lado direito e esquerdo do ataúde, para darem o seu último adeus. Neste momento a oitava de vinte e dois netos gruda os olhos secos nas pestanas lacradas do seu avô. Há tanto tempo que abandonou as práticas religiosas, não consegue se convencer de que a reza que ela puxar ali diante do féretro fará algum sentido. O que pensa realmente é se os tipos que prepararam o morto teriam lascado uma linha de cola nos olhos do avô. Esse pressentimento foi o que mais se aproximou para ela nos últimos anos de uma experiência mística. Imagina em cores o avô chegando ao outro lado sem qualquer condição de abrir os olhos e poder se certificar o esquema que vai ser nesse seu novo habitat. A condenação à cegueira eterna estaria relacionada quem sabe às traquinagens do avô em espiar suas netas pelo buraco de todas as fechaduras do mundo. Bem feito!, ela pensa.

2.
Juarez é o porteiro noturno do Cemitério Boa Esperança. A qualidade que tem de bom vigilante vem mais do fato de manter crescente o medo do que propriamente sofrer de insônias ou ser noctívago inveterado. Estar vivo e trabalhar em cemitério é já por si uma sina. Se há algum morto de fresco, o movimento dos parentes até anima a noite. Nos dias em que morte não manda ninguém, o turno se torna longo e as sombras mais assombrosas. O que ele faz é ajustar a banqueta num canto de parede e ligar o radinho de pilha na Rádio Seresta. Nas primeiras músicas nada acontece. O piso encerado do salão principal onde estão situadas as três capelas reflete um brilho intenso às lâmpadas dos lustres fixos ao teto. Aos poucos Juarez pressente um vento diferente. Um movimento mudo. Um burburinho miúdo. As mãos das músicas antigas antingem as frestas dos túmulos chamando para o baile noturno. A roupa sempre a de sempre. Eternamente. Dançam as almas em pleno contentamento descontente. Juarez ver nunca viu. Juarez sente.

Atendendo a pedidos!

A Cidade das Pontes

1.
As pontes começaram a ser construídas antes da Cidade. Era uma grande revolução. Uma grande revolução!, o engenheiro repetia em cima da fala do prefeito para com isso engrossar convicções. A ponte principal, de acordo o com projeto minuciosamente elaborado, ligaria o Centro da Cidade ao que eles chamaram de Primeiro subúrbio. Até a Cidade ficar completamente pronta, outras três pontes do Primeiro Subúrbio para o Meridional Norte, Meridional Sul e Meridional Oeste deveriam necessariamente ser levantadas. Isso sem contar todo o sistema de pontes que facilitaria trânsitos nas vias do Centro. Efetivamente deveriam em breve estar em funcionamento.

2.
Já na construção da primeira grande ponte, formou-se um ajuntamento gradativo. Uns que ouviram de outros direta ou indiretamente envolvidos com o projeto da edificação da Cidade e suas pontes. A novidade se extendia além dos arredores que compunham os limites territoriais da Cidade. O eco batia os quatro pontos cardeais Uma grande revolução! E com ele não somente o oco som retornava, mas dezenas e centenas e milhares de uma massa movente que se dirigia às pontes da Cidade. Chegavam. Trocavam informações sobre a jornada que fizeram; as dificuldades que superaram; e o tanto que tinham abdicado para viver ali na Cidade das Pontes.

3.
E foram todos se amontoando de ponta a ponta nas pontes. Mal era rompida a fita de inauguração de uma nova ponte e a multidão corria ao corrimão e ao chão. Defendiam seus lugares mais a um lado ou outro visando principalmente o pertencimento à zona mais nobre. À noite era sempre mais difícil. Começaram a haver negociações clandestinas. Alguns perceberam que entre os que estavam honestamente ali, também transitavam vigaristas de olhar oblíquo que terceirizavam seus lugares de ocupação a quem pudesse oferecer por eles uma boa nota. Soube-se que na Meridional Norte uma família inteira havia sido lançada fora da ponte direto para as dimensões do vazio inabitado para que o excelente espaço que possuía fosse negociado a um magnata que investia nesse novo tipo de mercado.

4.
O projeto começava a entrar em sua segunda fase. As pontes já estavam quase todas construídas. E principalmente a população que as ocupava era suficiente para lotar uma metrópole. O prefeito viu nisso um sério problema. Requisitou uma junta urbanística para discutir o caso. E por não ter sido possível encontrar lugar adequado, esta reunião extraordinária teve que ser imediatamente cancelada. Os engenheiros em sua maioria instalados em áreas nobres da Ponte Principal recusavam-se a arredar um metro que fosse para tratar de questões burocráticas.

5.
Era impossível um entendimento. Em compensação, as moradias se improvisavam mesmo em cima das pontes. Os serviços necessários à sobrevivência da espera cresciam e se burocratizavam. Uma nova geração começava a dar seus primeiros passos sobre a ponte em que residiam seus descendentes. Serviços de informações circulavam de uma ponta a outra. Até que numa manhã, um dos diários declarou o desaparecimento misterioso do prefeito. Nova eleição foi feita e eleito um novo representante. Nessa reviravolta, alguns papéis importantes foram extraviados do arquivo da Ponte Central. E a história do projeto piloto, depois de muitas mortes, acabou sendo abafada. Os mais velhos e tidos como caducos em vão recuperam a velha lenda de que, além das pontes, haveria uma cidade ajustada em toda a dimensão do vazio inabitado.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

O mal educado grito pontuado

Exclama ou não exclama?
Aqui: à esquerda da vírgula

Infame!

_ Que que foi, Isolda? Bateu um tristão, é?

Zooey

Pelo que você me contou, eu apostaria tudo o que você quiser que isso que ele anda usando não é o ego coisa nenhuma, mas alguma outra faculdade muito mais suja, muito menos básica. Puxa, pelo tempo que você já passou sentado nos bancos das escolas, era sua obrigação estar muito mais por dentro da coisa. Experimente arranhar a capa superficial de um professor incompetente, ou mesmo de um professor universitário - para o caso tanto faz - e em cinquenta por cento das vezes descobrirá que, por baixo, está um excelente mas deslocado pedreiro ou mecânico de automóveis.

(Franny & Zooey. J. D. Salinger)

terça-feira, 28 de julho de 2009

Franny




"- Ficaria muito satisfeito por abandonar o assunto... muito satisfeito. Mas, primeiramente, gostaria que você me explicasse o que entende por um verdadeiro poeta, se não se importa. Gostaria muito de saber. De verdade.
Havia um tênue brilho de trasnpiração na testa de Franny. Poderia apenas significar que a sala estava excessivamente abafada, ou que lhe sobreviera uma indisposição de estômago, ou, que os martinis lhe tinham subido à cabeça; de qualquer modo, Lane não parecia ter dado por isso.
- Eu não sei o que é um poeta de verdade, Lane. E gostaria muito que você pusesse um ponto final no assunto. Estou falando sério. Sinto-me bastante esquisita e não posso...
- Está bom, está bom...Ok. Vamos, calma. Eu estava apenas tentando mostrar que...
- Tudo o que sei é isto - cortou Franny. - Se você for poeta, tem de fazer algo de belo. Quer dizer, parte-se da crença de que qualquer coisa de muito belo fica, entende?, fica depois de se voltar a página e depois de se fechar o livro. Aqueles de que você está falando, Lane, não deixam uma única coisa, uma só, a que se possa chamar bela. O máximo que pode acontecer, talvez, é que uns sejam melhores que os outros e então há qualquer coisa que entra na nossa cabeça e eles deixam aí alguma ideia, sim, isso pode acontecer. Mas fazem isso porque sabem o que estão fazendo, sabem como deixar na gente alguma coisa, e isso não tem de ser forçosamente um poema, valha-me Deus! Pode ser apenas uma espécie de excrementos sintáticos, terrivelmente fascinantes... desculpe a expressão. Como Manlius, Esposito e todos esses pobres diabos.
Lane acendeu vagarosamente o cigarro, antes de falar.
- Eu julguei que você gostava de Manlius - disse ele então. - De fato, há um mês, mais ou menos, se não me engano, você disse que ele era um querido e que você...
- Eu gosto dele! Mas estou farta de só gostar de gente. Rogo a Deus que me permita encontrar alguém a quem pudesse respeitar..., Lane, você me desculpa por um instante?
Franny pôs-se subtamente de pé, com a bolsa na mão. Estava muito pálida.

(Franny & Zooey. J. D. Salinger)

Hoje!



O mapa tá aqui, no blog da Anna

Sexta

Fila no. 6





- Você está gripado?
- Não. A máscara é justamente para evitar. Não quero facilitar. A ceifa já começou.
- A ceifa?
- É.
- Não entendi. Desculpa.
- A grande separação. Você sabe. Joio de um lado. Trigo do outro.
- É só mais um vírus. O ser humano é pior.
- Não. Esse não é qualquer um.
- Disseram o mesmo do antrax, não foi?
- Do que você está falando?! Você realmente sabe do que está falando?! Antrax não era um vírus. Você é um desses caras que jogam palavras que não compreende sobre outras palavras para formar um discurso convincente. Daqui a pouco vai vir com estatísticas pra cima de mim. A covardia dos idiotas, usar estatísticas.
- Calma! ... E ande. Vamos, ande. Estamos atrasando a fila.
- Você não é cristão, confesse. Não é cristão. Bem se vê. Posso ver isso nesses seus olhos vermelhos
- Meu Deus, você está de luvas! O que é isso?! Senhor Jesus!
- Não é cristão, viu! Usa até o Santo Nome em vão.
- Tudo bem. Não ficaremos do mesmo lado. Eu: joio. Tu: trigo.
- Os sinais são muito claros. Basta ter o mínimo de visão para perceber.
- Que sinais? Você é um lunático, isso sim.
- Escuta. Não quero briga. Não estou para brigas. Seria arriscar demais a minha salvação. E eu não sou qualquer um. Sou um homem esclarecido. Sem medo de ser confundido com os faristeus. É tudo muito simples. Acompanhe o meu raciocínio. Influenza A subtipo H1N1 também conhecida como A(H1N1) ou, como queiram, "gripe suína". Isso não diz nada pra você?
- Hmmm... Deixe-me ver. Publicidade para vender jornais? Ou, talvez... Desvio de foco de questões importantes como a corrupção política...?
- HlNl!!! Não vai me dizer que isso não abre sua cabeça para alguma referência mística?!
- Posso me esforçar mais...
- HINRI, seu idiota. Jesus Cristo.
- Ãh? ... Você é mais maluco do que eu pensei. HlNl ---> HINRI. Peraí. E o R?
- O "R" é o mais lógico. "R" de RETURN. Jesus voltará. E o fim está muito próximo.
- Lembro de alguma coisa. Haverá choro e ranger de dentes. Tenho minhas dúvidas. Tantos há sem dentes por aí. Estes não irão para o inferno?
- Definitivamente você já está garantido por lá. É um dos porcos da legião.
- Ãh? ...
- Eles voltaram. Quando Jesus expulsou aqueles espíritos imundos para o mar quis mostrar o seu grande poder para os que estivessem aptos a enxergar. Você não é um deles.
- Ei, espere aí ... ande! ... Então por isso a gripe se chama "Suína".
- Viu!
- Tem mais uma máscara aí?
- ...

Fila no 5

- E vocês? Vieram de onde?
- Nós sempre estivemos aqui. Não "viemos". Somos.
- Desculpem-nos, essas questões menores... Elas precisam ser registradas. E as coordenadas nunca são muito precisas nesse primeiro momento. É necessário que vocês façam um esforço...
- O que exatamente o Sr. deseja saber?
- Três pontos fixos serão o suficiente. Mas eles terão que se referir ao grupo e ao indivíduo. É o que se exige aqui para o nosso controle.
- O grupo não está completo.
- Houve perdas?
- Dispersões traduziria melhor a ideia, Sr.
- Dispersões locais ou de ordem mais ampla.
- Em todos os níveis.
- Isso vai ser bem difícil. Recomendo, para evitar que a fila cresça o rabo mais do que deve, que vocês todos que pertencem ao grupo resistente cheguem até aquela mesa. Lá eles farão a triagem minuciosa.
- E o que acontecerá depois, Sr?
- Não sei responder sua pergunta. Só sou o responsável por encaminhar. Em todo caso, todos já estão previamente implicados. Inclusive os dispersos. ... Próximo!

show!



segunda-feira, 27 de julho de 2009

NooOOooOne

ruisousaruisousaruisousaruisousaruisousa


Qualquer um veio
Sacolejando por mais de seis horas
Dentro de um bonde
E os pensamentos eram moles e doces e quentes
As coisas ... ptchsc! quase nunca colam com cuspe
Mas era um cartaz...
E a esperança do Brasil, os nossos bosques têm mais vida


Qualquer um veio vindo
Guardando na boca a saliva toda
Usada para grudar o outdoor em frente à janela quid casa
AMO-TE TANTO... MEU AMOR, NÃO CANTE
Sua voz é horrível!
Mal sabia qualquer um que não eram mais Vinícius nossos vícios
Ok! Então. Vamos fazer o papel valer o cuspe investido
E a esperança do Brasil, os nossos bosques têm mais vida


Qualquer um veio e viu
Achou frestas de acesso e ousou arrogâncias
Cerrou olhos à Bond e fincou bandeiras pelos cantos quid casa
AS ESCOLHAS E A LIBERDADE E A CORAGEM
Não valem os calos nas mãos do cidadão
Mal sabia qualquer um que eu não olhava muito pras palavras
Curioso como no primeiro dia em que se tem um gato em casa
Concentrei-me no modo deO rabo alinhar-se perpendicular

E auscultei no buraquinho feito estrela em flor do cu do gato
Uma passagem secreta que me garantisse a fuga para longe lugar nenhum
Onde estivesse: qualquer um

A loucura é lilás
Como os hematomas
Não sente dor
E por isso canta
e dança
Enquanto as feridas sangram
l i f e

is


growing
.
..
...
....
.....
.......
.......

o n

sábado, 25 de julho de 2009

Bela página

Gostei de todos dessa página

Curriculum Vitae

Viveu uma vida
completa
Uma vida inteira
Manhã: guarda-chuva, café, roupa quente

Viveu uma vida
completa
Uma vida inteira
Tarde: janela aberta metade, almoço dos moços, marmita

Viveu uma vida
completa
Uma vida inteira
Noite: portões e portas, telefones mudos, medos

Viveu uma vida
completa
Uma vida inteira
Manhã: Tarde: Noite
Quarto
Sala
Cozinha

fumar, pensar, soluçar
horóscopo, novelas, rosário

Viveu uma vida
completa
Uma vida inteira
Manhã: Tarde: Noite
Camas feitas
Lustra- móveis
Sapóleo e esponja

fumar, pensar, soluçar
tele-sena, fezinha, fofoca

Viveu uma vida
completa
Uma vida inteira
Manhã: Tarde: Noite

Escola
Faculdade
Formatura

Namoro
Casório
Gravidez

Fumar, nem pensar
Cuidar do cocô dos netinhos!

Viveu uma vida
completa
Uma vida inteira
Manhã: Tarde: Noite: tudo igual
Parede branca de hospital

Viveu uma vida
completa
Uma vida inteira
Sabendo que o que
Estava vivendo era uma era

uma era uma era uma era ... era uma vez
E agora era a vez de quem estava vendo a vida que ela viveu morrendo


sexta-feira, 24 de julho de 2009

Oriente-se, rapaz

É certo que ama e odeia
Lambuza de olhos vendados
Por cima da blusa o salteio dos seios
Conduz em ânsia o nariz do pescoço ao caos
De onde não se pode mais fugir
Negligências de um vizir
Somente querer
Uma única e exclusiva divisa
Com tantas terras por aí a se fartar
Foi logo nesta fresta esquecer
O para que nasceu pra ser
Um de mil e uma
E tantas quantas quisessem dividir
Seus caprichos de vizir
Agora, lá fora, ao pôr-do-sol
Sorvendo melancólico o narguilé
Lamenta a ordem fatal
Sem lágrimas que o consolem
Larga o olhar à fumaça mesclando-se ao ocaso
Enquanto nos recônditos do palácio
Espaço reservado às artes do carrasco
Mãos grosseiras agarram ao correr
Melenas tão delicadas
Gesto travado. Arregalo de vistas
Miram ainda ao longe a silhueta do vizir
A morte dos belos é de todas a mais trágica
Navalha cissia e separa pensamento e desejo
Cabeça na mão do assassino
E um corpo perfeito cambaio
Sem chance alguma ao destino

Antes que a terra...

Os dois canibais famintos
Encontram-se depois de comerem
Longas distâncias contrárias
Pés descalços ao sol
Aquele músculo aberto já mostrando
Um quê de sangue saindo dos nacos
Que a estrada estraçalhou
Miram-se. Intimam-se. Surpreendem-se
De que na
Respectiva banda de lá
Nenhuma carne houvesse encontrada
Para que se pudesse morder numas boas dentadas...
_ Nada, nada?
_ Nada, nada, nada!
Miram-se. Intimam-se. Compreendem
Coisa mínima é o pensamento
Um querendo comer o outro sem dizer
Confessariam tamanha sina?
- Sinto. Mas já vejo em vez de um riso
Algo como que um risoto...
- Pensa se eu também não pensei!?
E já que assim dizes, poderíamos pôr em negócios
As partes de ti que desgostas. Pois certamente para o outro
Será uma boa Posta.
Os olhos tinham cada qual dois
Mero tiragosto um olho pra fome de que careciam
Mediam-se. Comiam-se. Com os olhos
O fato é que nada feito
Sob um sol de um céu em arco
Nenhuma palavra podia entrar em pacto
Um e outro queriam por todo
Cabeças. Troncos. Membros
Sem qualquer ressentimento
E o que fariam com os ossos?
Isso era coisa do Tempo

Yes!

video

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Revistas & Sites

O site das Escritoras Suicidas está mais vivo que nunca!
Não tenham medo, passem lá!

E na Germina tem palmeiras, onde encanta o Sabiá!

quarta-feira, 22 de julho de 2009

A cabeça de Beckett


A cabeça de Beckett me engole viva. Atravesso a noite orbitando o escuro vazio dessa moldura. Somos duas cabeças flutuantes. Mas ele vive mais por não ter qualquer compromisso com os vivos. Não me vale voltar às frases pensadas em insônia. É inútil. Posto-me diante da cabeça de Beckett e condenso o tanto de tempo e verdade que nela persiste. Não tenho imagens de santos. Oratório algum me concederá respostas. Disponho-me à serena couraça que oscila ao ritmo do meu fôlego. Ideia alguma é possível antes da crença. Então creio na marca mais clara do líquido olhar que consigo sorver. Todo rosto é máscara e mistério. O pássaro de papel, só uma folha amassada. Sombras contornam em meu quarto mais de onze apóstolos. Deus nenhum. Beckett sustenta o olhar. Alguns pés sangram em outras partes do corpo. Algumas mãos às quais se destinam os pregos convergem para palavras e pensamentos. A insônia é a prova de que tudo é perecível. E toda vigília tem sua origem no vazio escuro que circunda a cabeça de Beckett.

Ontem à tarde...




- Gosto de vir aqui. E penso que lhe aborreço. Certamente lhe aborreço. Devia ficar somente quieta e ouvir. Mas o meu coração insiste em derramar essas palavras. Ah, ... quero que saiba, estou lendo Andre Gide.
- Gide. Sim, Gide. E o que isso quer dizer? Como tem sido essa convivência?
- É estranho. Alguns autores que me caem às mãos parecem vir para muito perto. É como se eu os estivesse conhecendo. Ah, não me faço clara. Você tem razão, é mesmo uma convivência e tanto. Como a nossa, por exemplo. Eles me atravessam a alma.
- Os mortos...
- O que tem os mortos?
- Percebe como somos infantis?! Isso me surpreende. Tememos os nossos mortos. Aqueles que se enlaçam na malha de nossa história. Com os quais convivemos. Temos medo de que possam nos arrastar para esse abismo profundo e sem resposta que é a morte tão próxima de nós. Apressamo-nos em doar suas roupas. Quando, por um descuido ou malícia do acaso, um retrato qualquer ou um objeto ainda morno dos signos agregados em vida se põe diante de nossos olhos, nos fragilizamos. Alguns persignam-se. Outros suspeitam presságios. Tudo se faz para que o enterro de nossos mortos se dê por definitivo.
- Compreendo o que diz. Mas o que tem isso com as minhas leituras?
- Veja este livro, aqui, por exemplo. Contempla esses olhos. Consegue ver? Estão suspensos deste mesmo abismo para onde empurramos os nossos mortos mais próximos. Estoutros tantos, acolhemo-nos em casa. A eles nos abraçamos. Suspiramos. Sempre queremos fixar a linha de nosso vivo e inexpressivo olhar ao encontro desse círculo vazio e atraente a perscrutar-nos a mesma pergunta: Quem?
- Perdi um amigo tão próximo. Um golpe. Um golpe cruel. Inexplicável...
- Vamos... Fale-me mais um pouco de Gide...

Egomachistic




- Vá por mim, existem dois tipos de homens. Dois únicos tipos.
- Ãh?! Fala ...
- Os que vivem perseguindo você. E os que cagam pra você. Os primeiros, insuportáveis. Carentes, excessivos. Ingênuos a ponto de terem vaidade só por merecer o asco mais puro do seu desprezo. Quanto aos que cagam pra você... bom, eu não vou dizer que eles não mereçam que você lhes esprema uma espinha sequer. Eles vão sempre ser aqueles que cagam pra você, entende?
- E as mulheres?
- Piores. Bem piores... Ô, raça!
- E o que se pode fazer em relação a isso?
- Em relação aos que cagam pra você ou aos que babam por você?
- Não. Em relação às mulheres.
- Há... Não há o que se faça. Está tudo entregue às mares.
- Posseidon?
- Yes! Posseidon!

segunda-feira, 20 de julho de 2009

video

God only knows what I´d be without you
God only knows what I´d be without you
God only knows
God only knows what I´d be without you
God only knows what I´d be without you
God only knows
God only knows what I´d be without you
God only knows what I´d be without you
God only knows
God only knows what I´d be without you
God only knows what I´d be without you
God only knows

God only knows what I´d be without you

Ações




O amor em alta
O amor em baixa
O amor é tão indeciso que passa

O amor na rua
O amor na praça
O amor é uma grande piada

O amor inventa
O amor se acha
O amor não sustenta uma palavra

Ela está poética
Ele todo prosa
Se os dois se cruzam
Ninguém atura
Será amor
Ou literatura?

O amor comédia
O amor drama
O amor se esparrama pela cama

O amor se olha
O amor se beija
O amor tem a boca de cereja

O amor se abraça
O amor se encaixa
O amor, procurando, não se acha

Ela está querendo
Ele muito mais
Se os dois se cruzam
Deus nos acuda!
Será amor
Ou é só fissura?

O amor se humilha
O amor dá vexame
O amor das abelhas é um enxame

O amor é sujo
O amor é limpo
O amor combina com cada instinto

O amor se perde
O amor se esvai
O amor é tão lindo que dói

O amor sossega
O amor se esquece
O amor, de repente, aparece

Ela está feliz
Ele está contente
Se os dois se cruzam
Quanta amargura
Começam a amar
E lá vem loucura

O amor é simples
O amor é complexo
O amor fica bem com mais sexo

O amor é frio
O amor é chama
O amor só é bom pra quem ama

O amor é ferro
O amor é brasa
O amor que é amor nem se casa

domingo, 19 de julho de 2009

And the colored girls go doo do doo do doo do do doo, ...


Arturo Bandini

c a p í t u l o vintee2

Achei um quarto em Temple Street, em cima de um restaurante filipino. Era dois dólares por semana, sem toalhas, lençóis ou fronhas. Peguei o quarto, sentei na cama e matutei sobre minha vida neste mundo. Por que eu estava aqui? E agora? Quem eu conhecia? nem a mim mesmo. Olhei para minhas mãos. Eram mãos delicadas de escritor, as mãos de um escritor caipira, inadequadas para trabalho pesado, incapazes de fazer frases. O que eu podia fazer? Olhei em volta do quarto, as paredes manchadas de vinho, o chão sem tapete, a janela com vista para Figueroa Street. Senti o cheiro da comida do restaurante filipino lá de baixo. Era este o fim de Arturo Bandini? Seria este o lugar onde eu morreria, neste colchão cinzento? Eu poderia jazer aqui por semanas antes que alguém me achasse. Fiquei de joelhos e rezei:
- O que eu fiz pra você, Senhor? Por que você me pune? Tudo que peço é a chance de escrever, de ter alguns amigos, de parar de correr. Dê-me paz, oh, Senhor. Conduza-me a algo que valha a pena. Faça a máquina de escrever cantar. Encontre a canção dentro de mim. Seja bom para mim, porque estou solitário.
Aquilo pareceu me inspirar. Fui até a máquina de escrever e sentei. Uma parede cinzenta se ergueu. Empurrei minha cadeira para trás e fui para a rua. Entrei no meu carro e dei uma volta.
Eu tenho problemas para dormir no quartinho, embora tivesse comprado lençóis e cobertores. O problema era a miséria do dia, a infecundidade do trabalho permanecia no quarto durante a noite. De manhã ela ainda estava lá, e eu ia para a rua de novo. Então eu lembrava de um dos axiomas de Edgington: "Quando se está emperrado, pé na estrada".

(FANTE, John. Sonhos de Bunker Hill. Porto Alegre.LP&M, 2003)

sábado, 18 de julho de 2009

Les Fleurs de Moi





TRISTESSES DE LA LUNE

Ce soir, la lune rêve avec plus de paresse;
Ainsi qu´une beauté, sur de nombreux coussins,
Qui d´une main discrète et légère caresse
Avant de s´endormir le contour de ses seins,

Sur le dos satiné des molles avalanches,
Mourante, elle se livre aux longues pâmoisons,
Et promène ses yeux sur les visions blanches
Qui montent dans l´azul comme des floraisons.

Quand parfois sur ce globe, en sa langueur oisive,
Elle laisse filer une larme furtive,
Un poëte pieux, ennemi du sommeil,

Dans le creux de sa main prend cett e larme pâle,
Aux reflets irisés comme un fragment d´opale,
Et la met dans son coeur loin des yeux du soleil

TRISTEZA DA ALUNA

Sensual, a aluna revê uma penca de parentes
Assim que uma beata, sobre os ombros, tossir
É que de uma mão discreta e ligeira carece,
Avança sem domínio o contorno de seus seios

Supradons de satã amolecem avalanches
Murmurando, livra-se de suas longas pantalonas
E por menos saias surgem visões brancas
Que momento! Dão-se assim, como deflorações

Quanto ao perfume do lóbulo, a língua sorve
Ela enlaça num filete um alarma furtivo
Um poeta pior, inimigo de seu meio

Dando-se a crer que sua mão prende este pálido alarma
Aos reflexos irisados como fragmentos de opala
Ela mete-se a dançar como arlequim do Soleil

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Lá no Luiz

Hoje, lá no blog do Luiz Felipe Leprevost.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Despereaux

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Stradivari




Ao morrer, Antonio Stradivari deixou seu negócio para seus dois filhos, Omobono e Francesco, que nunca se casaram e passaram toda a vida adulta na casa do pai, como seus empregados e herdeiros. Continuaram por vários anos capitalizando seu nome, mas o negócio acabou soçobrando. Ele não lhes ensinara, não teria podido ensinar-lhes como se tornarem gênio. (Os instrumentos por eles construídos que pude ter nas mãos e tocar são excelentes, mas apenas isto.)
Temos aqui, então, o breve resumo da morte de uma oficina. Há quase três séculos os luthiers tentam ressuscitar esse cadáver para recuperar os segredos que Stradivari e Guarneri del Gesù levaram para o túmulo. Essa investigação sobre a originalidade teve início ainda em vida dos filhos de Stradivari. Os imitadores de Guarneri del Gesù começaram a trabalhar cerca de oitenta anos depois de sua morte, inspirados pela falsa história de que teria confeccionado seus melhores violinos na prisão. Hoje, as análises do trabalho desses mestres seguem três direções: cópias fisicamente exatas da forma dos instrumentos; análises químicas do verniz; e uma vertente fazendo o percurso inverso da lógica da sonoridade (partindo-se do princípio de que seria possível imitá-la em instrumentos que não tenham a exata aparência de um Strad ou de um Guarneri). Ainda assim, como observou o violinista Arnold Steinhardt, do Quarteto Guarneri, um músico profissional é capaz de distinguir quase instataneamente entre um original e uma cópia.
Falta nessas análises uma reconstrução das oficinas do mestre - mais exatamente, é um elemento que se perdeu irrecuperavelmente. Trata-se da absorção no conhecimento tácito, não dito nem codificado em palavras, que ocorreu nesses locais e se trasnformou em hábito, através dos milhares de gestos quotidianos que acabam configurando uma prática. O fato mais importante que sabemos a respeito da oficina de Stradivari é que ele estava presente o tempo todo, aparecendo inesperadamente em toda parte, reunindo e processando os milhares de elementos de informação que não podiam ter o mesmo significado para assistentes empenhados apenas na consecução de determinada parte. O mesmo se aplica aos laboratórios científicos dirigidos por gênios idiossincráticos; a cabeça do mestre fica cheia de informações cujo significado só ele pode alcançar. Por isso é que os segredos do físico Enrico Fermi, como grande experimentador, não podem ser compreendidos pelo exame dos detalhes de seus procedimentos laboratoriais.
Para transpor esta observação para o plano abstrato: numa oficina dominada pela individualidade e a peculiaridade do mestre, também é provável que domine o conhecimento tácito. Após sua morte, os passos, soluções e percepções por ele somados à totalidade do trabalho não podem ser recuperados; não há como pedir-lhe que tone explícito o tácito.
Teoricamente, a oficina bem gerida deve equilibrar conhecimento tácito e explícito. Os mestres devem ser insistentemente induzidos a se explicar, para expressarem o conjunto de passos e soluções que absorveram em silêncio - se pelo menos forem capazes de fazê-lo e o quiserem. Boa parte de sua autoridade deriva do fato de enxergarem o que os outros não enxergam, sabendo o que não sabem; sua autoridade torna-se manifesta em seu silêncio. Será então que estaríamos dispostos a sacrificar a qualidade dos cellos e violinos Stradivari em nome de uma oficina mais democrática?


(SENNETT, Richard. O artífice. São Paulo. Record, 2008, pp. 92 - 93)

A propósito de livros de poemas, acho que cada poema deveria vir em um livro, para que ficássemos lendo sempre o mesmo poema dentro daquele livro e pensando por muito tempo neste único poema - como uma peça exclusivíssima. Como um Stradivarius.



:P

segunda-feira, 13 de julho de 2009

No terraço, hoje à tarde

- Meus olhos estão gastos
- Os óculos, a senhora quer dizer.
- Meus olhos.
- Gastos?
- É. Gastos.
- De tanto ver? Como as pupilas fatigadas?
- De ver pouco e sempre o mesmo. É assim que se gastam os olhos.
- Mas o desejo de ver mais não é inesgotável? Não pensa assim?
- Os olhos se gastam antes do desejo. O desejo faz gastarem-se os olhos. É precipitado. Como uma pintura falsa.
- Toda pintura é falsa. Quer dizer, o que não é natureza... Ai, não sei mais. Me confundo. Mas talvez entenda.
- O desejo desenha traços e joga tintas, volumes, texturas. O desejo é ansioso e tétrico. Os olhos buscam ansiosos e tétricos o que o desejo quer ver e nada enxergam. Pois nada se revela novo. Somente o que já foi esboçado. Não quero mais ver desse modo. Recuso-me. E se então surgir o desejo depois do que os olhos virem não será uma pintura falsa.
- Os olhos não sabem ver sem interesse. E eles mesmos produzem interesse ao ver. Não sei qual a melhor idade para sentir. Talvez eu esteja perdendo tempo. Não sei. Transito por lugares feios que ainda se deixam enfeitar de beleza. Mas é muito sutil.
- Beleza é forma e manifestação. Quando os olhos se gastam, houve só forma e manifestação vazia.
- Tenho medo das palavras que me fazem ver. Talvez por isso minhas palavras é que estejam gastas.
- Para não temer as palavras procure compreender os olhos e os ouvidos que as tocam. Observe. Forma e manifestação.

domingo, 12 de julho de 2009

Me lembrou Carlitos



A madrugada avança beco adentro
Escuros e úmidos rumos
Nenhum retorno
Ônibus via-crucis, ponto final
A esmo e todo trôpego, o bêbado
Enfada-se dele mesmo
Se um clown tanto ensaiasse não faria
Aquele andar cambalaio
A agonia amarga e recorrente
Boiando entre os escombros das gentes
Contornos de rostos tornando-se mero esboço
Rastros de luzes. Imagens desbotadas
Iscks de isqueiros no mais fundo dos bueiros
Sem pagar ingresso no guichê
O bêbado vê o verdadeiro espetáculo
Romantismo tísico das calçadas
Frio beijando escaras
A lua a noite as pedras falsas
Ao fim de toda etílica empreitada...

fila n.o 4

- Olá! Tudo bem com você?
- ...
- Você deve preencher esse questionário aqui, por favor.
- Questionário? Como assim, q u e s t i o n á r i o?
- É só um procedimento da clínica. Nada demais.
- Procedimento? Como assim, p r o c e d i m e n t o?
- Olha, a doutora vai passar direitinho essas questões todas pra você. É uma espécie de histórico pessoal. O retrato que o paciente tem dele próprio.
- Histórico pessoal? Não entendi...
- É. Como você se pensa. Mas não precisa aprofundar muito. São questões simbólicas.
- Se não preciso me aprofundar, por que tenho que preenchê-lo? Não estou entendendo... Simbólicas, você quer dizer, tipo Jung?
- Mais ou menos. Tem figuras. Veja! É quase um livro.
- Não gosto de livros com figuras... Escuta, vai demorar muito pra eu ser atendida? Estou ficando um pouco sufocada aqui. E ainda tem esse questionário. Você pode dizer pra doutora que eu fui embora. Eu vou embora, tá bom?! Você pode dizer? Não vou responder merda nenhuma de questionário. Essa palavra, só essa palavra "questionário" já me dá nos nervos. Que porcaria de clínica é essa?
- Ei, está tudo bem. Não se preocupa. Não precisa responder, então. Olha só. Vamos rasgar esse questionário agora. Você quer rasgar?
- Por que eu rasgaria o meu retrato pessoal? Isso não faz sentido. Por que eu me rasgaria. Rasgaria meu histórico. Você disse antes que era como se fosse meu histórico pessoal.
- Sim, mas você não o preencheu. Está aqui intacto. Veja... Tudo bem, então não precisamos rasgar.
- Se está intacto deixa de ser um retrato pessoal? Alguém que nunca fez nada na vida não existe? É isso que você quer dizer? Eu vou embora. Não quero ouvir mais uma palavras. Chega!
- Tem chá. Aliás, tem um chá bem especial aqui. Vou fazer um chá pra você. Você gosta de chá?
- Especial? Como assim e s p e c i a l? O que você quis dizer com "especial"?
- ...

mis arreos son las armas, / mi descanso el pelear ....

PRÓLOGO

Desocupado lector: sin juramento me podrás creer que quisiera que este libro, como hijo del entendimiento, fuera el más hermoso, el más gallardo y más discreto que pudiera imaginarse. Pero no he podido yo contravenir al orden de naturaleza; que en ella cada cosa engendra su semejante. Y así, ?qué podrá engendrar el estéril y mal cultivado ingenio mío sino la historia de un hijo seco, avellanado, antojadizo y lleno de pensamientos varios y nunca imaginados de otro alguno, bien como quien se engendró en una cárcel, donde toda incomodidad tiene su asiento y donde todo triste ruido hace su habitación: El sosiego, el lugar apacible, la amenidad de los campos, la serenidad de los cielos, el murmurar de las fuentes, la quietud del espíritu son grande parte para que las musas más estériles se muestren fecundas y ofrezcan partos al mundo que le colmen de maravilla y de contento. Acontece tener un padre un fijo feo y sin gracia alguna, y el amor que le tiene le pone una venda en los ojos para que no vea sus faltas, antes las juzga por discreciones y lindezas y las cuenta a sus amigos por grandezas y donaires. Pero yo, que, aunque parezco padre, soy padrastro de don Quijote, no quiero irme con la corriente del uso, ni suplicarte casi con las lágrimas en los ojos, como otros hacen, lector carísimo, que perdones o disimules las faltas que en este mi hijo vieres, y ni eres su pariente ni su amigo, y tienes tu alma en tu cuerpo y tu libre albedrío como el más pintado, y estás en tu casa, donde eres señor della, como el rey de sus alcabalas, y sabes lo que comúnmente se dice, que debajo de mi manto, al rey mato. Todo lo cual te esenta y hace libre de todo respecto y obligación, y así, puedes decir de la historia todo aquello que te pareciere, sin temor que te calunien por el mal ni te premien por el bien que dijeres della. (...)

PRIMERA PARTE DEL INGENIOSO HIDALGO DON QUIJOTE DE LA MANCHA
CAPÍTULO PRIMERO

QUE TRATA DE LA CONDICIÓN Y EJERCICIO DEL FAMOSO HIDALGO DON QUIJOTE DE LA MANCHA



En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme, no ha mucho tiempo que vivia un hidalgo de los de laza en astillero, adarga antigua, rocín flaco y galbo corredor. Una olla de algo más vaca que carnero, salpicón las más noches, duelos y quebrantos los sábados, lantejas los viernes, algún palomino de añadidura los domingos, consumían las tres partes de su hacienda. El resto della concluían sayo de velarte, calzas de velludo para las fiestas, con sus pantuflos de lo mesmo, y los días de entresemana se honraba con su vellorí de los más fino. Tenía en su casa una ama que pasaba de los cuarenta, y una sobrinha que no llegaba a los veinte, y un mozo de campo y plaza, que así ensillaba el rocín como tomaba la podadera. Frisaba la edad de nuestro hidalgo con los cincuenta años; era de conplexión recia, seco de carnes, enjuto de rostro, gran madrugador y amigo de la caza. Quieren decir que tenía el sobrenombre de Quijada, o Quesada, que en esto hay alguna diferencia en los autores que deste caso escriben; aunque por conjeturas verosímiles se deja entender que se llamaba Quejana. Pero esto importa poco a nuestro cuento; basta que en la narración dél no se salga un punto de la verdad.
Es, pues, de saber, que esto sobredicho hidalgo, los ratos que estaba cioso - que eran los más del año - , se daba a leer libros de caballerías con tanta afición y gusto, que ouvidó casi de todo punto el ejercicio de la caza, y aun la administración de su hacienda; y llegó a tanto su curiosidad y desatino en esto, que vendió muchas hanegas de tierra de sembradura para comprar libros de caballerias en que leer, y así, llevó a su casa todos cuantos pudo haber dellos; y de todos, ningunos le parecían tan bien como los que compuso el famoso Feliciano de Silva, porque la claridad de su prosa y aquellas entricadas razones suyas le parecían de perlas, y más cuando llegaba a leer aquellos requiebros y cartas de desafíos, donde en muchas partes hallaba escrito: La razón de la sinrazón quea mi razón se hace, de tal manera mi razón enflaquece, que con razón me quejo de la vuestra fermosura. Y también cuado leía: ... los altos cielos que de vuestra divinidad divinamente con las estrellas os fortifican, y os hacen merecedora del merecimiento que merece la vuestra grandeza. (...)

[CERVANTES, Miguel de. Don Quijote de la Mancha. PLM ediciones. España, 1994.]

sábado, 11 de julho de 2009

face to face


- É homem?
- Mulher... Quer dizer... podia passar por homem.
- É homem ou é mulher, afinal?
- Mulher, vai. Mulher.
plac plac plac plac plac...plaplaplac plaC!
- É ... gorda?
- Não. É piorzinha que gorda. Sabe aquelas que têm toda a neura de gorda, mas não é gorda.
- Mas... é magra? Magra de tomar boleta? É magra ou é gorda, pô?!
- Não é gorda. Pronto.
Plac plac plac plac plac...plaplaplac plaC! plac plac plac plac plac...plaplaplac plaC!
- Loira?
- Depende. Tingida. Agora tá loira. Mas a qualquer momento pode não estar.
- Ah, assim fica difícil. Loira ou não loira.
- Loira, loira. Pronto!
Plac plac plac plac plac...plaplaplac plaC! plac plac plac plac plac...plaplaplac plaC!
- Alta?
- Depois das dez, sempre.
Plac plac plac plac plac...plaplaplac plaC! plac plac plac plac plac...plaplaplac plaC!
- É a Alice P.?
- hummmm...non! Non cest la Aleee C. P.
- Usa chapéu?
- Usa! Usa! HahahahAaAa!
Plac plac plac plac plac...plaplaplac
- Lacinho?
- Ai, você já sabe quem é... Usa lacinho, sim!
plaplaplac plaC!
- É a senhora B.
- Merda! É a senhora B. Vamos outra?!
- Vamos. Mas apostando ok?
- All k!

fila no 3

- É aqui?
- Deve ser... Vê aí o endereço.
- Estranho. Falar verdade, achei meio espelunca. Você não?
- Ah, vamos ver melhor. Lá dentro de repente é diferente. Aqui só tem uma placa. Ó, tem uma porta pesada ali. Empurra aí. Tá aberta. Vamentrar.
- Corredorzão. Esquisito. Tudo vazio.
- Não. Tem dois caras ali, no final do corredor.
- É. Mais esquisito ainda.
- Opa! Acho que ali é o final da fila, meu.
- Nossa. Pior que é mesmo, cara.
- Será que tem gente mais fudida que nós. Foda, hein?
- Ah, vamos lá. Encarar. Ver qual é.
- Porra, meu; outro corredor maior. E só de fila.
- Sossega cara. Você queria o quê? Achou que ia ser fácil. Chegar e ser atendido?!
- Ué, mas na hora de negociar o rim o cara fez mil promessas.
- Ah, meu! Rim todo mundo tem, né? Agora gente sem coração é que é geral.
- Pode crer! Ô lôco, meu!

fila no. 2

- Moça, sua senha.
- É só um número... Você devia falar "seu número"; não "sua senha". Senha é uma coisa mais importante. Por exemplo, "senha de banco". Um lugar com entrada restrita pede senha. Tudo se gasta. A palavra "senha" está desgastada. Não é uma coisa boa.
- 26.
- Está em qual, agora.
- É só olhar no visor. 12, está no 12!
- Por que não "visar no visor", em vez de "olhar no visor"?
- Próximo, por favor. O senhor pode chegar aqui para pegar a senha?! É necessário senha. Senhor! Por favor!
- Mas se ele é um senhor não precisa de senha. Ele já é um "senhor".
- A senha dele é preferencial.
- Ele está mais próximo da morte. Não pode mais esperar. Por isso a senha de senhoras e senhores são senhas preferenciais. Vão morrer logo, não podem esperar tanto. Aí eles jogam essa palavra "preferencial". Onde fica o banheiro?
- Qual é mesmo sua senha, por favor?
- 26.
- O banheiro fica depois desse corredor, à esquerda, terceira porta. Mas procure não demorar muito pois se na terceira chamada não chegar ninguém no guichê, será preciso tirar outra senha.
- Segura pra mim, então.
- Não posso, desculpa. Próximo.
- Então anota aí o numero do meu celular quando estiver perto da minha senha, você me chama.
- ... Ãh!

Maya Deren

video

Fila no. 1

- Está ansiosa?! Eu vi quando você entrou. Desculpa, deixa eu ver seu número. Eu sou depois de você...
- ...
- É a primeira vez? ... Não se preocupa, não. É tudo bem tranquilinho. Ele vai pedir pra você abrir tudo. Vai enfiar a mão lá dentro. Fuçar um pouco. É meio desagradável. Mas depois que a gente tiver lá dentro é o que importa. Você não tem uma arma aí, né? HAhAHahaha...
- ...
- Eu gosto de vir aqui. Adoro pessoas estranhas. Já fiz inclusive uma lista longa com categorias de estranhos. Você não faz ideia. Sabe que tem mais estranhos entre nós do que pessoas normais?!
- ...
- Na verdade, as pessoas normais também são estranhos. É que suas estranhezas são difíceis de identificar. Mais implícitas. Entende?! E a gente se distrai. Eu me distraio muito olhando pessoas. Adoro pessoas.
- ...
- Descubro coisas extraordinárias sobre pessoas. Aliás, só é possível aprender sobre pessoas. Quer dizer, você pode saber sobre plantas, também. Alguns gostam de plantas. Eu não sei cuidar muito de plantas, não. Morrem. Estou acostumado a ver planta morrer na minha mão. Begôneas, Buganvílias. Cravos. Octubas. Muitos tipos já morreram na minha mão. Eu continuo comprando.
- ...
- A gente só pode aprender alguma coisa com pessoas. Era isso que eu queria dizer. Bom, tou vendo que você não quer conversar muito, né... Ó, acendeu... É você!
- ...!