1.
Na capela três do Cemitério Boa Esperança está sendo velado o corpo do Sr. Amâncio Os familiares revezam-se aos pares, lado direito e esquerdo do ataúde, para darem o seu último adeus. Neste momento a oitava de vinte e dois netos gruda os olhos secos nas pestanas lacradas do seu avô. Há tanto tempo que abandonou as práticas religiosas, não consegue se convencer de que a reza que ela puxar ali diante do féretro fará algum sentido. O que pensa realmente é se os tipos que prepararam o morto teriam lascado uma linha de cola nos olhos do avô. Esse pressentimento foi o que mais se aproximou para ela nos últimos anos de uma experiência mística. Imagina em cores o avô chegando ao outro lado sem qualquer condição de abrir os olhos e poder se certificar o esquema que vai ser nesse seu novo habitat. A condenação à cegueira eterna estaria relacionada quem sabe às traquinagens do avô em espiar suas netas pelo buraco de todas as fechaduras do mundo. Bem feito!, ela pensa.
2.
Juarez é o porteiro noturno do Cemitério Boa Esperança. A qualidade que tem de bom vigilante vem mais do fato de manter crescente o medo do que propriamente sofrer de insônias ou ser noctívago inveterado. Estar vivo e trabalhar em cemitério é já por si uma sina. Se há algum morto de fresco, o movimento dos parentes até anima a noite. Nos dias em que morte não manda ninguém, o turno se torna longo e as sombras mais assombrosas. O que ele faz é ajustar a banqueta num canto de parede e ligar o radinho de pilha na Rádio Seresta. Nas primeiras músicas nada acontece. O piso encerado do salão principal onde estão situadas as três capelas reflete um brilho intenso às lâmpadas dos lustres fixos ao teto. Aos poucos Juarez pressente um vento diferente. Um movimento mudo. Um burburinho miúdo. As mãos das músicas antigas antingem as frestas dos túmulos chamando para o baile noturno. A roupa sempre a de sempre. Eternamente. Dançam as almas em pleno contentamento descontente. Juarez ver nunca viu. Juarez sente.
Na capela três do Cemitério Boa Esperança está sendo velado o corpo do Sr. Amâncio Os familiares revezam-se aos pares, lado direito e esquerdo do ataúde, para darem o seu último adeus. Neste momento a oitava de vinte e dois netos gruda os olhos secos nas pestanas lacradas do seu avô. Há tanto tempo que abandonou as práticas religiosas, não consegue se convencer de que a reza que ela puxar ali diante do féretro fará algum sentido. O que pensa realmente é se os tipos que prepararam o morto teriam lascado uma linha de cola nos olhos do avô. Esse pressentimento foi o que mais se aproximou para ela nos últimos anos de uma experiência mística. Imagina em cores o avô chegando ao outro lado sem qualquer condição de abrir os olhos e poder se certificar o esquema que vai ser nesse seu novo habitat. A condenação à cegueira eterna estaria relacionada quem sabe às traquinagens do avô em espiar suas netas pelo buraco de todas as fechaduras do mundo. Bem feito!, ela pensa.
2.
Juarez é o porteiro noturno do Cemitério Boa Esperança. A qualidade que tem de bom vigilante vem mais do fato de manter crescente o medo do que propriamente sofrer de insônias ou ser noctívago inveterado. Estar vivo e trabalhar em cemitério é já por si uma sina. Se há algum morto de fresco, o movimento dos parentes até anima a noite. Nos dias em que morte não manda ninguém, o turno se torna longo e as sombras mais assombrosas. O que ele faz é ajustar a banqueta num canto de parede e ligar o radinho de pilha na Rádio Seresta. Nas primeiras músicas nada acontece. O piso encerado do salão principal onde estão situadas as três capelas reflete um brilho intenso às lâmpadas dos lustres fixos ao teto. Aos poucos Juarez pressente um vento diferente. Um movimento mudo. Um burburinho miúdo. As mãos das músicas antigas antingem as frestas dos túmulos chamando para o baile noturno. A roupa sempre a de sempre. Eternamente. Dançam as almas em pleno contentamento descontente. Juarez ver nunca viu. Juarez sente.















