sábado, 26 de dezembro de 2009

Salve-me

"O ócio, dado a um artista ou a uma pessoa sem pendor para a preguiça patológica (que não dedixa de ser uma forma de incompetência quando significa a improdutividade total em qualquer campo de atividades), é, apesar da extrema diferença que separa os dois grupos, um dispositivo poderoso. O artista, se não tem um emprego, trabalha em sua obra. O incompetente improdutivo produz um discurso vazio enquanto se congratula pela sorte de ter uma mesada ou herança que o mantenha pairando fora da órbita daqueles que necessitam de salários. O ócio e os aplicativos que viabilizam conversas tecladas em tempo real na internet deram aos improtuditos preguiçosos patológicos algo a fazer com todo o seu tempo livre diante da telinha do micro."

Cecília Gianetti

whitenoise helo, enter


video

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

O Brasil também tem neve

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Poema de Natal

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Feliz Natal, amigos!!!!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O discreto charme da burguesia




"O discreto charme da burguesia" é o título (em português) de um filme do Buñuel
Não sei se gosto mais de dizer:
" O discreto charme da burguesia" ou o nome do diretor: "Buñuel"
Estou na dúvida
Hoje vi "O discreto charme da burguesia"
E procurei durante todo o filme compreender o que era
"O discreto charme da burguesia"
Não que ao longo do filme eu tenha me concentrado
somente em descobrir o que era "O discreto charme da burguesia"
Antes de o filme começar, eu li nas letras amarelas "Buñuel"
E vi que isso não era tão bom quanto pronunciar "Buñuel"
Embora seja tão bom ver "O discreto charme da burguesia"
Quanto dizer: "O discreto charme da burguesia"
Sem contar a sensação de ler em francês:

Le charme discret de la bourgeoisie


Confesso que fiquei um tempo razoável pensando nisso
E antes eu queria dizer também que a Beth adora esse filme
E que o Fabio estava certo quando disse que o filme era de lá pelos anos 70


Madonna tem um verso ótimo em uma de suas letras:
"Music mix the bourgeoisie and the rebel"
Afinal de contas, talvez esse seja: "O discreto charme da burguesia"
Obviamente se usarmos esse verso e o filme todo como uma alegoria
Por exemplo, onde se lê "Music", leia-se: "Dry Martini"

Isso Dali (ou: Rá! Rá! Rá!)

- É isso mesmo, então?
- Ãh?
- É isso? É isso mesmo que você quer? É isso, então? Isso mesmo? Assim, desse jeito?
- Ai, não sei se eu quero mais conversar sobre isso... A gente se confunde tanto conversando. Talvez se a gente deixasse ... sei lá. Se afastasse um pouco...
- É só dizer. Diga. Pode dizer com todas as palavras. É isso mesmo que você quer?
- Não sei. Posso não saber? Posso não querer pensar sobre saber ou não o que eu quero? É possível? E também não acho que a gente vai resolver tentando resolver. A gente só vai complicar mais.
- Você complica. É você que sempre complica e você sabe disso.
- Por que sou eu que sempre complico? Então você nunca complica? Você acha que do jeito que as coisas estão está tudo bem? E que é bom deixar assim que tudo vai se resolver?
- Espera aí! Olha só! Viu?! Viu como é você que complica tudo? Você acabou de dizer que não queria resolver nada porque se a gente tentasse resolver ia complicar mais... e agora está dizendo que sou eu que não quero resolver nada...
- É isso mesmo. A gente não se entende. E quanto mais a gente tentar vai ficar pior, sabia? Só vai ficando pior bem pior e cada vez pior. É melhor a gente não tentar mesmo. É isso! Vamos esquecer isso tudo. Sabe o quê?! Vamos ... vamos ... esquecer. É isso.
- Não tem mesmo como consertar. Você é louco, sabia?! Você é o cara mais louco que já se meteu no meu caminho. O mais. De todos. The most of!
- Para de falar frase em inglês no meio das outras. Já falei que é ridículo isso. Fica ridículo. É muito ridículo. Sabe que tem umas coisas em você que eu acho bem ridículas. É impressionante. Depois o louco sou eu.
- Tou cansada. Você me cansa tanto. Não... Eu me canso de mim quando estou com você. Isso é o pior. Eu vou tendo tédio de mim. Ás vezes eu tenho vontade de me desligar. Mas você não quer isso. Você insiste. Até a gente chegar nesse ponto. O problema é sempre esse. A gente não passa desse ponto.
- Bom. Então você está mesmo dizendo que é isso... Pelo jeito é isso mesmo. É isso, então?

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Neuza Pinheiro

dalvas*

azuis

e marias

anãs brancas

e vermelhas

dádivas

sinais de vida

nunca divida

uma estrela

nem duvide

que ela

siga

aqui

uma estrela bálsamo

ali

uma estrela diva

sempre

no seu encalço

a lamber

cada ferida

a lamber

cada ferida

a lamber

cada ferida

Desejo

para o ano

vívidas

redivivas

2010 estrelas

lambendo suas feridas

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-

neuza pinheiro

www.spiritualsdoorvalho.blogspot.com

Sosígenes Costa

Ora, a alegria, este pavão vermelho,
está morando em meu quintal agora.
Vem pousar como um sol em meu joelho,
quando é estridente em meu quintal a aurora.

Clarim de lacre, este pavão vermelho
sobrepuja os pavões que estão lá fora.
É uma festa de púrpura, e o assemelho
a uma chama do lábaro da aurora.

É o próprio doge a se mirar no espelho.
E a cor vermelha chega a ser sonora
neste pavão pomposo e de chavelho.

Pavões lilases possuí outrora.
Depois que amei este pavão vermelho,
os meus outros pavões foram-se embora.

Sosígenes Costa (Belmonte, 1901 – Rio de Janeiro, 1968).

sábado, 19 de dezembro de 2009

Olha lá! É João!!!


É hoje!


Dedo de Moça
uma antologia das escritoras suicidas
lançamento: 19 de dezembro, sábado, de 15h30 às 18h30, na Livraria Martins Fontes - Av. Paulista, 509, SP.
» Dedo de Moça comemora um projeto que dura (e nos diverte!) há 4 anos. Em outubro de 2005, quando o site Escritoras Suicidas foi lançado na internet, não sabiamos no que ia dar. Hoje o que se sabe é que brincar com estereótipos — ainda que a intenção não seja necessariamente essa — é um jeito gostoso de se quebrar paradigmas.

O livro, com apresentação do músico, compositor e escritor Guttemberg Guarabyra, texto de orelhas do escritor Nelson de Oliveira, e ilustrações de Eliége Jachini, reúne contos e poemas de 30 autoras brasileiras. Bem, nem todas são mulheres. Mas com exceção de Dominique Lotte e Romina Conti, pseudônimos, respectivamente, dos escritores Iosif Landau e Rodrigo de Souza Leão, falecidos em 2009, nenhum outro autor nessa antologia revela sua identidade masculina ou o que existe sob as suas vestes femininas. Vale tentar advinhar.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

As figurinhas de Sara Key




Então, está tudo bem. Eu sei que dezembro antecede janeiro. E nem por isso será uma continuação. Então, está tudo certo. As meninas estão vindo aí para o encontro de sábado. Não sei pra vocês, mas esse 2009 foi mesmo de lascar, hein, garotas?! Eu até pensei em comprar uma dessas câmeras filmadoras pra registro das nossas grandes frases de efeito. Todo esse susto que nós passamos com notícias de guerra e debilidade planetária. Sem contar aquela terrível fatalidade que me fez cair o chão em pleno mês de março. O mundo todo abrindo embaixo de meus delicados pés. Eu parei imediatamente o que estava fazendo. Porque esse é o meu jeito, vocês bem sabem. E me dediquei dramaticamente às lágrimas. Mas essa bruxa da literatura não nos deixa livres de uma falsidade portuguesa. Eu sei. E ele sabia também, enquanto fumava feito um louco pelos cafés de Curitiba usando todo o tempo para falar de autores mortos. Usando todo o tempo para falar das coisas da vida. E ríamos tanto que achávamos que éramos mais felizes que os caras que sacam seus cartões de embarque em aeroportos internacionais. O que nos vale é somente o corpo e a voz. Ninguém perguntará na entrada do purgatório se temos na ponta da língua a leitura de Dante Alighieri (que tanto poderia ser uma bela marca de roupa para sermos recepcionados por Irene enquanto São Pedro tira um ronco). Embora não quiséssemos jamais envelhecer. Embora não quiséssemos jamais ser tristes, sempre vem aquela melancolia lírica depois da terceira margem do rio. Afinal de contas, ser triste publicamente é chato pra cacete. E ele costumava perguntar: Tá filiz?! Eu disse pra ele pelo messenger que estava enrolada com umas questões pessoalíssimas. A imagem na tela não acompanhava os movimentos reais. E era como se eu olhasse para um retrato que se mexia como uma estrela que não existe mais. Eu disse pra ele pelo telefone que estava meio que sem saber o que fazer. O silêncio do outro lado era sempre a máxima atenção. E da terceira vez comprei um bilhete na rodoviária e fui parar às sete da manhã à porta do prédio na Rebouças. Ele fez uma cara engraçada e me disse : Vixe! Nem me conte. De minha parte sempre gostei desses conselhos imediatos que ele costumava me dar. Venha pra cá, a gente vai nos "café" e comprar livro. E eu fui, porque era final de ano e mesmo sem haver planejado há sempre aquela possibilidade de viajar para algum lugar. Eu fui porque era um lugar pra não pensar em literatura. Pois a literatura existia tanto quanto o cheiro do café ao abrir a lata estampada com aquele touro espanhol. Enfim, dezembro sempre antecede janeiro, mas nem por isso significa que será uma continuação. Hoje mesmo não é uma continuação. Veja por exemplo aquele amigo que trocou quatro cachorros por uma filha linda que o surpreende sempre. E também aquela amiga que deixou a casa ao comando de monges e ganhou o mundo em busca de alguma realidade maior. A literatura não vale mesmo um peixe no aquário. E tantos por aí acreditando loucamente que a coisa é com eles. Tantos acreditando que ao final virá o grande prêmio de reconhecimento. Digo o seguinte, já comecei a doar esses livros todos que há muito não são abertos. Doa a quem doer. E os que termino de ler, falto pouco jogá-los pela janela. Ver se eles voam. Nem são tão bons assim. Enfim, os dias nos estão sempre à disposição. Fora dos livros. É bom mesmo que possamos aprender a abrir a palma da mão ao sol e esperar que pouse alguma borboletinha tonta. E se chover, abrir um guarda-chuva bonito pras gotas disputarem o seu teto. Ontem choveu tanto que eu pensei naquela história infantil O barquinho amarelo, descendo pelas páginas enxurradas. E hoje sairemos às ruas e compraremos presentes nos sentindo exatamente idênticas àquelas menininhas das figurinhas de Sarah Key.
Afrodite é a minha nêga

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Jingle


Por essa época, Papai Noel
tem fortes crises renais

Conto de Natal

PREFÁCIO

Eu me empenhei, neste pequeno livro fantasmal, em invocar o Fantasma de uma Ideia, o qual não aborrecerá os meus leitores consigo mesmos, com os outros, com o tempo, ou comigo. Possa ele frequentar suas casas alegremente, e que ninguém pretenda esconjurá-lo.

Seu fiel Amigo e Servo

Dezembro, 1843.

Charles Dickens


O Fantasma de Marley

Havia muito que Marley falecera. Desse fato não podia restar a menor dúvida. O registro de óbito estava assinado pelo sacerdote que fizera o enterro e por testemunhas idôneas. Também Scrooge, seu sócio, o tinha autenticado com o seu nome - com essa mesma firma que representava honroso crédito e dava valor a qualquer papel em que figurasse.
Que Marley estava morto não se podia pôr em dúvida. Disso, Scrooge estava convencido. Este fora seu sócio por largos anos, o único beneficiado por seu testamento, o único administrador de seus bens e seu único confidente. E, apesar desses laços e benefícios, Scrooge não ficou tão impressionado com a morte do amigo que não solenizasse o triste acontecimento com a trasanção feliz do dia do funeral.
Marley estava morto, bem morto. Convém fixar isto, pois, de outra forma, a história que se segue não apresentaria nada de maravilhoso, nem tampouco poderia ser compreendida.