sexta-feira, 16 de março de 2012

tabacaria


ah, eu não devia escrever essas coisas
e correr riscos
(minha mão é o meu coração)
o que a gente não consegue ser é também
muito do que a gente é

quarta-feira, 14 de março de 2012



Parece que o meu amor passeia em volta da minha casa munido de todos os instrumentos de comunicação criados para separar o meu amor de mim. Parece que o meu amor trabalha in numa dessas bases petrolíferas, meio do mar. É índio de tribo antiga, sinais de fumaça: Onde está? Venha me ver? Cadê? Meu cabelo está tão curto, Rapunzel! Joga você! Parece que o meu amor tem compromissos pelo mundo e o mundo é infinito e não sobra um intervalo que seja para (nos andaimes da construção) trocarmos aquele pedaço de pão. Parece que o meu amor tem uma pressa enorme de ver as cores, ouvir os sons, provar do gosto e tocar batuques pra acordar multidões. Parece que o meu amor é louco que chegue logo o fim do mundo pra constatar: Eu não disse?! Olhe como é bonito!
A paciência é uma jovenzinha serelepe, gasta o dia todo a olhar pela janela e avisar os que estão dentro da casa: É vindo! Esperemos! As tranças soltas no vento, sapato envernizado, vê sol e vê a chuva, nuvens muitas. A paciência é leve e perfumada, tem os olhos claros e vivazes. Vive a espantar as moscas dos pensamentos sombrios que impedem que ela enxergue - a qualquer momento! - apontando lá na curva da rua um arremedo de sim! Uma certeza: a paciência tem memória fraca e esquece o tanto de passado que se arrastou até ali. Lembra um pouco o meninozinho que pede esmolas à porta do asilo. Mas é bem diferente. Não mira os olhos tristes dos velhos abandonados.


O desespero é velho e gordo, arrasta sandálias pela casa à procura de uma extensão pra plugar mais uma tomada de um eletrônico novo. O desespero é úmido e pegajoso, limpa as mãos no pano sujo da pia e leva à boca comida que restou da noite passada. Uma convicção: o desespero não se admite ser feliz. O desespero parece um pouco a Hilda Hilst dos últimos dias. Mas é bem diferente. Não poetiza.

A ansiedade é uma viúva senil, arruma-se todos os dias para sair apenas como o treinamento para o dia em que realmente sairá. Vasculha todo o armário na esperança doida de achar aquele exclusivo vestido que nunca será encontrado. A ansiedade demora a adormecer por ficar o tempo todo se levantando para conferir se todas as portas estão devidamente trancadas. E por fazer isso tantas vezes é que aos saltos de coração ela mesma vira a chave na fechadura livrando-a da tranca. A ansiedade é falsamente atenta diante de alguém que a aconselha, quer reagir de imediato - fugir dali e chocar-se contra o muro duro do mundo. A ansiedade não sabe nada do amor nem das cantigas de ninar. É burra burra burra e acha que está sempre certa. A ansiedade não sabe, mas está com seus dias contados.