segunda-feira, 27 de outubro de 2014

alhures

e hoje, ao passar
por aqui e por ali
encontramo-nos com outros
logo antes mesmo de sairmos de casa
outros estavam por aqui e por ali
subiam pelas pernas
escondiam-se atrás dos pelos
agarravam-se à curva magra do joelho
e os dedos cravados
afundavam pelas coxas
subiam com toda vontade
até pendurarem-se aos pentelhos
e adentrarem os buracos
nadavam por dentro de nós
corriam pela corrente sanguínea
aceleravam o ritmo do coração
e um vento louco tangia
as ideias para um e outro lado
logo ao sair e passar por eles
os outros, tantos
desviei meus olhos torpes de medo
guardei em segredo as mãos frias
os fios de cabelos brancos
crescendo lentos e supersticiosos
diante dos outros pelas ruas
crentes do mesmo horror antigo
fingiam-se conhecerem-se
tocavam-se distraídos
na verticalidade angustiante
do elevador
na saliva grossa
formando nos cantos da boca
no esbarrar de braços e pernas
entre as portas de entrada e saída
os outros todos os outros
e a pressa urgente de estar sozinho
pesava nos ombros tanto meus
quanto de todos os outros

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Báscara

Na sala de aula
O professor mal pago
Apaga lentamente o quadro
Às suas costas (que perigo!)
Adolescentes tristes
Aguardam o grande sinal

esquerda direita, volver

Alguns acontecimentos são extremos
A não ser que você esteja olhando pra cima
Olhar pra cima é evitar
Que o acontecimento escorra para um dos extremos

O extremo da direita é execrável
O extremo da esquerda é igualmente execrável

Os que visam à direita
Estão de costas para esquerda
Tem um saco de pedra diante deles
Abaixam-se para alcançar uma pedra
E jogá-la pelas costas com toda força
Atingindo a cabeça dos da esquerda

Os que visam à esquerda
Estão de costas para direita
Tem um saco de pedra diante deles
Abaixam-se para alcançar uma pedra
E jogá-la pelas costas com tora força
Atingindo a cabeça dos da direita

A corja dos extremos
Uiva raivosa ao surgir à sua frente
Algum da direita ou da esquerda
Não ouve com os próprios ouvidos
Não anda com as próprias pernas
A fala que sai de sua boca
Reverbera o grito louco
Contra esse, esse e aquele
Que não seja do seu bloco

Ao completar 16 anos
Ganhe o seu saco de pedra
E comece a treinar lançamento
Para a esquerda ou direita

A menos que você olhe pra cima
E evite tomar partido
Sem atirar pedras
Nem para esquerda ou para direita
Enxergará a melhor pessoa
Até que os partidos tenham partido


domingo, 5 de outubro de 2014

fantasma

Quando decidiu pelo não
Pesar os prós e os contras
Não se fez questão

Andou pela casa em silêncio
Já era um fantasma

Abraçou a mãe e os irmãos em silêncio
Já era um fantasma

Chorou os amores
Revisitou-os todos
Olhou o gato
E mais uma vez o invejou
E uns tantos livros,
Alguns ali, nunca lidos
Nada importava
Já era um fantasma

O tempo inerte
que engendra bolor
A tudo se adere
à face de um dente,
o amargo da língua
à remela dos olhos
o pretume que habita
unhas e rugas de alguns mendigos
sentados quietos em dias de sol

Cerrou lentamente os olhos
No gesto final de acalentar
Tristeza de rio incerto
Na lágrima amarga
jamais desaguada

Aliviou saber
Que o esforço de suas mãos
Forjavam um ritual
De primeira última vez

Entre um passo e outro
Deu-se com o espelho
Mirou-se estranho
E ainda quis avaliar as perdas
Mas tudo era perda
E perder-se de vez  seria abandonar
Uma casa antiga sem acesso ao sol
Onde as coisas úmidas achegam-se
À desolação dos mínimos objetos


Ele não havia ninguém mais em si
O corpo era somente uma sombra de carne
Preparando o despejo
A um exato lugar fora do tempo
E das coisas visíveis

um mundo mudo não muda

Uma nova categoria se constrói
A dos reagentes

Os que reagem
São violentos
Praticam também a violência
E quem vai reagir
Depois que todos reagirem violentamente?
Como reagir a reação?

Que silencio é esse que durante tanto tempo
Espera o momento exato da reação?

Que silêncio é esse que engendra
com dor imensa
uma reação?

E então depois de vencido o prazo
Grita violentamente
Exigindo que torturem, apedrejem, destrocem e executem
Aquele que primeiro gritou
E torturou e apedrejou e destroçou e executou

Todo silêncio forja dentro de si
O gesto e a palavra exata
que irá romper a casca

A costura da longa espera
É feita de desesperos

sábado, 27 de setembro de 2014

um pequeno assassinato

no intervalo entre uma aula e outra,
encontrei o escritor que agora é professor
ele é professor para ganhar a vida
pois não se ganha a vida sendo escritor

melhor explicando:
a vida que se ganha sendo escritor
não é a mesma vida que se ganha sendo outra coisa
um médico, um diplomata, um herdeiro
assim sendo, é possível até ser escritor

médicos leem livros
no intervalo entre uma e outra cirurgia
e podem até escrever um livro

diplomatas leem livros
no intervalo entre uma e outra viagem
e podem até escrever um livro

herdeiros, alguns, de tão entediados, leem muito
os clássicos imortais ou, descaradamente, bestsellers do momento
e por isso podem até escrever um livro ou mais

Era bem isso que estava escrito no olhar do escritor
que agora é professor
naquele intervalo entre uma aula e outra
quando ele me disse: "não posso escrever mais,
preciso ganhar a vida"




segunda-feira, 15 de setembro de 2014

perceba

é cedo ainda, de manhã
agora você acorda e percebe o corpo
mais pesado do que nunca
uma vontade maior em querer não

querer não bem mais forte que
querer sim

e também você não tem um cachorro
pessoas felizes têm cachorro
está confirmado

olha a agenda da semana
mil compromissos
como eles vieram parar ali sem você se dar por isso?

ah, você não se deu por isso
é isso!



terça-feira, 2 de setembro de 2014

o prosador vai à padaria

Hoje, às quatro da tarde
faltou pão na casa do autor
Ele estava sozinho
e quis, em sua solidão,
comer um pão com mortadela
Aquela vontade de ser simples novamente
Sair de casa a pé mesmo
Foi indo ali por aquelas ruas
que ele tanto mapeia em sua ficção
Talvez até assobiasse
Sentiu-se estranho - um personagem
Seria que o olhavam?
Mas não era ele ninguém tão assim
propenso a olhares e gritos fanáticos
Era só um autor de ficção
- premiado, laureado, traduzido
(justiça seja feita!)
Mas daí a reconhecerem-no na rua
Lá isso era querer-se demais
para coisa tão banal feito a prosa ficcional
Inda mais que estava vivo
E em assim estando, não relevava a autoria
Tomarem-no para ídolo
Não. Imagina. Logo ele...
Até riu-se...
Eram questões que lhe passavam
na lenta e trabalhada passada
E eis que chega à padaria
Pede o pão no mesmo tom
que o senhor de meia idade a sua frente
Sorve proustianamente
o cheiro quente da massa
E segue o caminho de volta à casa
Estamos sempre voltando pra casa
Anônimo e estupefacto
Sabendo a exata medida de valor
que uma boa prosa e nada têm,

no Brasil

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

treino

hoje experimentei
o mundo sem você
Pensei: vou ver propositalmente
como vai ser depois que ela sair de vez
já que hoje, por coincidência, ela não está

fazia azul no céu
as borboletas tontas, ali na rua do lado
esbarravam nos fantasmas dos vivos
o ipê explodia um lilás escandaloso
deitando folhinhas no tapete do chão

ah, aquela senhora que carrega o braço
pra cima e pra baixo, sabe?
(por causa daquela doença que a gente
até descobriu o nome, lembra?)
ela sorriu quando eu passei

o rapaz que entrega água
estava de novo de ressaca
com o corpo deitado no balcão
e o canário louco na gaiola
cantando ou gritando?

os portugueses na frente do restaurante
falavam sem parar, com uma alegria abusiva
como se fundassem ali uma pequena pátria

o guardador de carros fez aquele mesmo tipo
de barulho de boca quando passei perto dele
e por isso, mais uma vez, não o cumprimentei

fiz tudo como de costume
entrei no café
pedi um espresso
ao rapaz que sorri fazendo careta
abri o livro de poemas
li um deles em silêncio

foi quando percebi
não adiantava a vida fingir-se viva
se você não estava ali


quinta-feira, 10 de julho de 2014

pelo mundo as notícias correm
e o barco de Caronte não cessa de navegar
tão lindos são os seus mortos
e tão sagrados
que festa seria estivessem vivos
tão lindos são os seus mortos
e tão sinceros
deviam estar brincando quando surpreendidos
agora o espírito assombrado
flutua absorto diante da carne rota
onde antes havia fala
onde antes havia riso
e no coração habitava
um desejo enternecido
os gritos dos pais são lágrimas silenciosas
onde estarão meus meninos
desde que saíram da pátria mitificada?
outros vales habitarão?
terão enfim sua morada?

do útero escuro da terra escorre um clamor sem nome