sábado, 23 de julho de 2016

Espelho, Espelho



Edward Mãos de Tesoura percebo
O quanto parece estar feliz hoje
Amanhã é provável
- quase certo,
Que você fique triste
Por isso vai aproveitar hoje
A tábua de passar roupas
No meio da sala
Uma vitrola da década de 40
Herança do seu inventivo pai
Sempre que você lembra 
Seus olhos repuxam numa careta
Apenas evite o delicado confronto
Um corpo diante do outro
Concentre-se na tarefa prática de existir
Com a espada de um dedo afiado
Atravessa o vazio das mangas 
Suspende a camisa xadrez
Agora a lâmina longa da mão direta
Sinta a textura do tecido de algodão
Incrível seu gosto por coisas delicadas
Cuidado, Edward
Está tão feliz que pode estragar tudo
Ah, agora você quer dançar
"Traped by a thing called love"
Dance, Edward. Gire, querido
Na sala de espelhos você é mil
Os sofás já estão estourados
Desse salto exausto que você dá
Amanhã você conserta tudo
Esse longo e interminável amanhã
E o desfile das coisas finitas
- diante dos seus olhinhos vítreos
O que é isso, meu querido
Ei, olhe aqui. Nada de tristeza hoje
Você é um menino crescido
Essas lâminas afiadas 
E o fio cortante do silêncio
Ah, se eu me aproximar com essas palavras
Não quero nem pensar no que pode acontecer






segunda-feira, 11 de julho de 2016

Nem isso

Lembro-me de mim
Como se fosse hoje
A menina certamente se chamava Sandra ou Sônia 
Entre o seu olhar e o meu
Uma cabeça de velha
De onde eu estava, avistava o cabelo grosso feito o nylon das bonecas plásticas (todas essas cujo corpo se vende, penduradas nas vendas junto a salames, réstias de alho e cias de couro)
Um trecho de braço
Coberto num grosso casaco
Unhas sofríveis num esmalte escuro falhado
E a mão agarrada a um terço
Teria fornicado alguma vez
Pelo número de filhos, ao menos seis 
Sandra, de frente pra velha
Via os olhos azuis vibrantes
O nariz recurvo
Estranha e esculhambada sensualidade
E a boca incontrolável citando longos trechos de apócrifos
E a frouxa dentadura subindo e descendo conforme as palavras fragatas se agitavam no mar eslástico da língua
Adamastor e o Velho do Restelho numa única e incômoda forma
Impediam o imã dos meus olhos atrair os de Sônia
Só por alguns momentos segundos
O céu escuro se abria e eu via 
A claridade de um rosto
"Amo-te tanto meu amor não cante, não finja, não represente"
E apesar da situação política dessa ilha e dos demais continentes
Penso em Sandra e somente em Sônia
Dez mil morriam à minha direita e à minha esquerda anjos desmaiavam em fronts de guerra 
Meus olhos perseguiam a beleza de Sandra por trás do volume de feiúra que era a forma difusa e sensual da bruxa
Talvez ela nem existisse
Talvez fosse mesmo o tempo que se avoluma inundando tudo, cobrindo, fechando
Logo mais teríamos notícias dos últimos acontecimentos
Os deuses exigem tanto e por isso decidi aquele mesmo dia, além de me amarrar ao mastro
Também crobriria de cera os ouvidos
As sereias e suas bocas pequenas abriam e fechavam
Ainda hoje não escuto nada e tudo é líquido e estrondoso 
Todos os caminhos levam ao corpo


quarta-feira, 6 de julho de 2016

Náufragos do asfalto


Não me deixe sem notícias
Sinais de fumaça - quem sabe
Acordo assustada com os gritos 
Semana passada aconteceu de novo
Dessa vez foi uma menina
A noite e seus vertiginosos túneis
Por isso prefiro existir de dia
Salvo sua alma de um quase naufrágio com beijos emergenciais 
Teu hálito de anti-depressivos
Contra minha bala de gengibre 
A quem queremos enganar?
Ainda assim, arranco um gozo no deserto de teu corpo
Nossa transa se assemelha aquelas danças
Em que um dos dois é um boneco de pano
Você, essa ilha margeada de tristeza 
E o maldito romantismo sussurando ao meu ouvido
Aguenta mais um pouco, só mais um pouco, assim
Me desafogo de ti com a mudez dos soldados que retornam das guerras
Arrumo a casa, faço a melhor comida
Aviso que eu mesma  sairei para comprar as flores
Caminho  em dias de sol
A neblina do amor pesa em meus olhos
Não vou dizer, mas quero deixar bem claro
Estou contando as horas pra que essa temporada de eternidade acabe

sábado, 2 de julho de 2016

Bandeira


As mulheres do sabonete Araxá
São cinquentonas gostosas
E moram em casas largas 
Com cães latindo felizes em torno de suas saias
No que o sol dá as caras, elas vêm abrir janelas
Com um gesto expansivo de um Jesus recendescido do eterno crucifixo
O olhar doido doidinho pra dar dentadas no dia
Se possível, sem alvoroço
Há espaço para todos no coração dessas três
Agora cuidam das mães
Abraçam e beijam os netos
E riem, como elas riem com as frases que eles dizem
A primeira - não insistam!
Só faz ligações pra fixo
Imagino ela se enrolando no fio do telefone tipo a mocinha do filme
Emoldurada na porta que dá para um jardim
Me conta as últimas novidades 
Os casos mais descabidos 
Fico por dentro de tudo e ainda arrisco um palpite
Ai, essa eu amo muito demais e desejo
A segunda é das redes sociais
Tem perfil em vários sites 
Adoro quando ela agarra o gargalo do frisante
Fica assim meio alisando e me falando dos amantes
Dos olhos saem faíscas da vingança de saber
Por trás de cada calça o tipo de pau que resguardam
Me segreda esse segredo com a língua em meu ouvido
Ai, essa eu amo muito demais e desejo
A terceira já foi prostituta linda que eu namorei 
Fazia ponto na esquina da quadra de minha rua
E quando o frio batia, batia de não ter jeito
Eu ia lá ter com ela, dividir um cigarrinho
E um gole do bom conhaque
Ouvir confissões doídas
Tomar ódio de polícia
Imaginar um movimento e fazer revolução
Meus reinos e meus festins, tudo por esses olhares 
A alegria tão lírica
Os mantras que elas recitam 
As velas de sete dias para São Jorge Guerreiro
Novena de Nossa Senhora e o sagrado feminino
Sagrações da primavera, conselhos, receitas, chás
Tudo isso eu adoro
Nessas mulheres tesudas do Sabonete Araxá!
Não quero nunca que morram
Minha vontade por elas vem de um tempo tão antigo
De quando os homens  do mundo
Um mundo avesso a esse nosso
Eram gentis cavalheiros 
Respeitavam bem as moças
E cuidavam das crianças
Lágrima havia nenhuma
Só amor e temperança e cantigas de ninar
Essas cinquentonas lindas ainda me bouleversam 
Hipnotizam meus reinos, embriagam meus festins
Esses versinhos chinfrins, deixarei tudo pra elas
A cismar sozinho à noite
Abro um livro já antigo
Fico lendo e repetindo o poema feito reza
Ao poeta solitário que inventou essa balada
Vou dormir bem convencido:
Tenho mais do que preciso
Desejo só o que quero
Tudo belo belo belo

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Uma noção bem periférica suspensa no centro



O buda passou distraído
Na minha calçada
Falando ao celular
Sabe-se lá com quem 
É meu ponto aquele
Meditar, isolar toda imagem e fluxo de pensamento
E só
Coisa pouca
Quando chegava lá na casa de praia
Era tanto vento e sol
A gente corria de biquíni
Uma vez teve aquele golfinho morto 
O mar devolveu
Um fim de tarde e a gente ficou olhando
Ali, onde aquela menina morreu afogada
No dia do aniversário
Os macacos loucos se agitando dentro da mente
Nesses galhos vários galhos
O buda, pois bem: o buda
Distraído na calçada lá de casa
Falando, falando, falando
Eu cheguei nele com tudo
Passa essa porra desse celular, seu budinha do caralho
Passa agora! Bora! Bora! Bora!
Desliga essa porra aí
Era um buda jovem
Estava lá no fundo dos olhos 
Por trás daquela veste de garota distraída falando ao celular
Falando, falando, falando
Encontrei ele na calçada de casa
Aí, peguei e matei

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Olhos nus

O meu melhor algoz
Sabendo sempre o alvo certo 
Pra onde apontar o tiro
No meio de uma risada 
Embriagada
Quem nunca mijou na rua?
No meio da noite
Tentar o último número
E era tão mais simples
No momento certo
Ter virado o rosto
Hamlet sempre ressuscita
Quando alguém abre o livro
E morre repetidas vezes
Capturado pelo mesmo erro

domingo, 19 de junho de 2016

Sonha Hito Steyerl com ovelhas eletrônicas? ou Isto não é um poema


PLANO SEQUÊNCIA:

a catadora de lixo
varre as ruas com o zoom dos olhos
o drama já se converte num clássico
do gênero marginal cinema-sarjeta
convocado espontaneamente
assim que soam os despertadores,
das bocas dos veículos
escoa o elenco de apoio 
pronto a produzir e despejar lixo em grandes quantidades

lixolixolixolixolixolixolixolixolixo
por onde o comboio passa
espalha-se o rastro de entulho
lixolixolixolixolixolixolixolixolixo

o roteiro original se confunde com documentário
Duas câmeras: olho esquerdo/olho direito de Sheila - mulher, negra, periférica, mãe do estudante Umberto Esperança - garoto precoce, engajado em lutas sociais na Escola Municipal Afogados


PLANO GERAL ABERTO:Sheila sai do bairro para a cidade com seu carrinho

morros, céu azul
(plongée) plano se fecha à medida que a personagem se aproxima do centro
pernas transitam calçadas
detritos se acumulam embaixo de mesas, rente às paredes
junto ao meio fio: detritos

(Som ambiente: grito, buzina, sirene
uns restos de conversa 
se não é voz suave de criança
Sheila ignora e segue)

câmera inquieta
flagra, cata e arruma no carrinho
toneladas a preço de nada
depois de reciclado, lucro sem fim aos magnatas do monturo

CORTE: em salas aclimatadas, acadêmicos discutem
a importância da reciclagem como alternativa para evitar o colapso ambiental


CORTE: os que enfeiam a cidade 
trazem a roupa e os dentes limpos
desviam seus corpos do corpo de Sheila 
evitam o choque com o que consideram espécie de lixo que respira

Sheila para isso pouco se lixa
divisa à frente um par de coturnos
o tecido da farda provoca-lhe náuseas
mudança de  itinerário
dois minutos pro suco que o seu garoto garante

lanchonete da esquina:
Umberto no trampo onde bate o ponto
momento alto do dia
Sheila ergue os olhos 
close no filho que o lixo manteve vivo

agito do outro lado da rua
perseguição 
corre doido de polícia
o crack e o traque
coturno saca da arma
coturno puxa o gatilho

pipoco seco
cadê a bala?
mãos aos ouvidos
Sheila vasculha o chão
cadê a bala?

plásticos, papeis, metais 
nada da bala
olho comovido viu
o tiro atingiu a frio
A cabeça do menino

corpo estendido, sangue escorrendo
que foi que houve?
quem viu? 
isso é filme?
pegadinha do apresentador?
levanta daí, menino!

olhos enquadram o monstro fardado
nenhuma resposta devolve a vida
ao corpo quente estirado no chão
carne negra só se compra viva 
e em condições para o desempenho bruto da lida
CLOSE: as mãos se banham do sangue do seu sangue
atônita, a mãe mascara de vermelho a cara
o urro na rua no meio do redemoinho

logo ali, o repórter, também armado, dispara o flash
confere o furo e encaminha à redação a imagem digital
Sheila cinco mil vezes impressa nas Notícias Populares
Sheila lançada no quintal do assinante
Sheila no balcão da padaria
Sheila nas banquinhas de revista
Sheila varre as ruas com o zoom dos olhos
sua imagem e semelhança amassada, largada a um canto da calçada
Sheila flagra/cata/arrumanocarrinho 


FADE IN: homem gordo em sala de apartamento

revira os posts em sua rede social
entre fotos fofas de felinos
reproduções de Sheila 
sua cara fotoshopada, lavada de sangue 
legenda: "Filho de catadora é morto com bala perdida"

(perdida não, se estivesse perdida, a catadora achava e reciclava!
(polícia fazendo o seu trabalho com afinco
(bandido tem que matar mesmo, antes de fazer uma vítima fatal
(esse país vai de mal a pior #maisamorporfavor
(se estivesse em casa, isso não teria acontecido
... Hamlet e outras 792 pessoas curtiram

obra em pleno movimento de reprodutibilidade técnica
música instrumental, sobem os letreiros
o filme entra em cartaz
o filme sai de cartaz
baixam a cópia, repassam o link
um poema é escrito
o fato é esquecido
Sheila na rua camuflada
Sheila imagem no cyberspaço viajando à deriva 

NINGUÉM: O que você está vendo aí, Hamlet?
HAMLET: Imagens, imagens, imagens

quinta-feira, 5 de maio de 2016

pernas de sereia

pernas de sereia

nenhuma música ressoa
- silêncio sobre silêncio
excesso insuportável
de ausência
o cristal entregue à criança
tempo de chuvas
perturbações
distorções de sentido
luz intensa
cegueira, vertigem
o corpo desviando-se
das sombras
fugas, recolhimentos
distância entre ouvido e grito

cristal
antes a tudo imune
entregue às mãos da criança

tecer novamente
um ritmo que se faça música
partir do deserto
e encontrar a sede exata
partir das mãos
e medir o espaço do abraço
na trilha escura divisar
o olhar vaporoso do amor

lâmina e suspensão
segurar o sonho
antes que dissolva
beijar os pulsos
antes que expirem
sorver o ar desimpedido
partir do que foi partido

o cristal escapa das mãos
estilhaços de luz dentro dos dias
a alma, toda azul invade o quarto
onde anjos suicidas
recapitulam o instante
imediamente antes
em que os lábios
ensaiariam o gesto exato de um beijo

terça-feira, 19 de abril de 2016

Se isto serve como um poema



os três e eu ali éramos
uma pequena estrutura de desastre
pronta para ser ativada
quando eu começasse a falar

antes de chegarmos à sala
onde aconteceria a defesa da tese
(sim, é disso que trata o poema
- e não do fato de aquele especialista
tomar o autor como sua propriedade)
antes, como já mencionado 
no quinto verso
fui a um café com um amigo
e ele me perguntou se eu estava preparada

nesse mesmo instante,
a moça do café se aproximou
e como uma criança prestes a ouvir
a primeira palavra de um ditado
aguardou em silêncio
- não uma resposta ao que o amigo 
perguntou-
mas o pedido que deveríamos fazer

Nisso o chão se abriu
e no momento seguinte
estávamos eu e os três ali
dentro daquela sala
sem que eu pudesse gritar

meus dedos percorreram trêmulos
a borda da carteira
naqueles lugares secretos
onde se largam os chicletes
eternamente gastos e sem gosto
à procura de algum dispositivo
capaz de livrar-me de um
previsível espetáculo de execução
então comecei a falar

My favorite things

Aconteceu perto daqui
dentro do corpo, veio um vento quente
e as árvores do pensamento
desfolharam-se todas
era outono dentro de mim
enquanto eu olhava você
um avião cruzou o céu
e eu quis significar o avião
e eu quis significar o céu
olhei pra cima e fotografei o avião
                            fotografei o céu
dentro do avião - talvez - uma moça de azul
deixava de observar quem a observava
ansiosa para que o futuro chegasse logo
para se livrar da ideia inescapável
de todos morrerem ali
sem a mínima esperança
de mais um beijo ou mais um café
atrás dela, uma criança ajustava as cores de um cubo mágico
enquanto girava as peças, você me dizia coisas do tipo:
"Gosto de fechar os olhos e olhar pro sol!
Dá pra ver uma tela de sangue dentro do corpo. Você gosta?"
Não querendo interromper
o que estava acontecendo ali
John Coltrane disse que eu anotasse essa também