terça-feira, 22 de março de 2016

Carta aos Surdos para uso dos que Ouvem



 
O rabo de foguete voltou a transitar pelos céus
Há quem diga que sua carcaça é da cor preferida daquela atriz de cinema
Outros juram que tem a mesma cor do focinho de um cão de rua
Ouvimos um barulho, mas não sabemos bem de onde veio
Parece que começou naquele restaurante em Portugal
Enquanto os amigos escolhiam o que pedir para o jantar
A moça agarrou a faca mais pontuda
e desferiu golpes contra os próprios olhos
Fizeram um curativo improvisado com o guardanapo de seda
E todos saíram para dançar
Com os olhos cobertos, ela foi a que mais se divertiu
Depois teve aquele outro episódio
Televisionado em horário nobre
Mostrando todas as etapas de como se prepara um cordeiro
Escolher o mais tenro que ainda esteja amamentando
Separá-lo da mãe e depois é só matar, escalpelar, cozinhar e saborear
Os que comiam carne ficaram escandalizados
Como alguém poderia ser tão violento assim!
Marcharam em passeata até sua casa
Bateram em sua porta e ameaçaram arrombá-la
Esse assunto foi motivo de muitas conversas
Durante o almoço e o jantar
Enquanto degustavam um bife suculento
Não se falava em outra coisa
- Como alguém poderia ser tão violento assim!
- Um assassino como esse não pode transitar entre as pessoas normais
Pessoas normais com todos os dentes na boca
Pessoas normais com duas pernas e dois braços
Pessoas normais de acordo com o que a natureza diz
Pelo jeito que esse aí pensa, não parece uma pessoa normal
Aquele bêbado com chapéu-coco jamais será normal
Para se construir um país decente em que as pessoas vivam em paz 
é urgente assassinar esses anormais
Esses que querem avacalhar com a ordem familiar
Esses que querem adulterar o que a natureza determinou
Esses que querem tirar do macho o poder de conduzir a fêmea
Tudo começou a ficar assim com a chegada dos anormais
Antes havia silêncio e a ordem reinava em todas as ruas
Os bois eram mortos num abatedouro afastado da cidade
E a carne era toda acondicionada em bandejas de isopor
Os cortes bem arrumados nas prateleiras dos supermercados
Depois que as vísceras do bicho foram exibidas
Era urgente encontrar o assassino e quem ousasse defendê-lo
Os açougueiros mais antigos da cidade foram convocados em reunião
Só eles eram capazes de assassinar quem mostrasse o boi sendo morto
Afinal era uma prática secreta e destinada a alguns escolhidos
Com as mãos sujas de sangue protocolaram o tratado de paz
Quando o martelo erguido batesse sobre a mesa
Começariam as execuções

terça-feira, 8 de março de 2016

Águas de Ariel

Para Ariel Nobre

Ariel, agora, daqui desta janela
O céu é cinza e o vento forte anuncia chuvas
Não tenho mais medo de chuva, Ariel
Bebo a água das tempestades
E danço no jardim entre relâmpagos e trovões
Arco retesado a quem desejar te ferir

Somos a promessa de Athena
Nossos corpos, nossas regras:
Rachar a cabeça de Zeus
Extirpar costelas até abrandar
A pele dura do antigo homem
Declarar a existência híbrida e pura
Sonhar Ser; tornar-se Ser

Ao longe, o azul das montanhas celebram
O encanto de tua ousadia
Nesses tempos intranquilos
Em que corpos de mulheres
São silenciados e assassinados
Teu corpo, maior que a tarde,
Projeta-se além de estrelas e estradas
O novo menino parido de si
Inteiro e estonteante
Ariel, Ariel
Todas as águas murmuram teu nome

segunda-feira, 7 de março de 2016

for sale

Domingo à tarde a felicidade brilha
Falsa como um novo produto
Recém surgido no mercado
Tento não reparar, disfarço o olhar
Mas paro de modo involuntário
Nas pequenas imperfeiçoes
Tenho fascínio pelas pequenas imperfeições
E lamento tanto,
Ah, como eu lamento
Ter escolhido aquele poema maldito
Como o meu preferido
E ter recitado seus versos em ocasiões especiais
E também em situações banais
Como enquanto esperávamos o próximo ônibus
Numa estação suja e cheia de inconformados
Sem me dar conta de que ao fazer isso
Estava listando ao universo minha incapacidade
De acreditar em felicidades fabricadas

Mas agora que o jardim foi destroçado
Pela última tempestade de verão
Baniram-se as pequenas imperfeições
Tudo se reveste de um terrível encanto
Ligo a tevê e aumento o volume
Os notíciários anunciam crises e catástrofes
Você sorri e me puxa num abraço urgente
Seu gozo despudorado atravessa paredes
E ganha as ruas, chegando aos ouvidos
Dos que disputam ofertas imperdíveis
Em extensos corredores de centros comerciais





sábado, 5 de março de 2016

O que temos para o momento




"Desculpa não entendi. Sobre o que mesmo você estava falando?" Eu perguntei e ela me disse:
- Deixa pra lá. Não tem importância mesmo.
Eu tive que levantar para virar o disco e estava prestando atenção no que fazia. Ultimamente eu estava tentando, pelo menos tentando, prestar atenção no que faço. Uma coisa de cada vez. Deixa pra lá, não tem importância mesmo.E é quando a gente fica segurando uma frase na mão; como quando a gente tem um cigarro na mão e está ouvindo alguém dizer uma coisa importante ou ouvindo uma notícia importante e esquece de bater as cinzas. Uma coisa meio sem sincronia. Fiquei com a frase na mão. E era melhor que eu permanecesse em silêncio porque se falasse alguma coisa do tipo "Ah, por favor, me diga o que você disse. Eu estou escutando agora. Vamos, diga.", se eu dissesse isso, é claro que ela não ia me dizer mais nada. O que eu podia fazer, portanto, era falar sobre outra coisa. Começar um outro assunto, pra evitar, sabe, esse tipo de coisa, esse tipo de, vamos dizer, desentendimento. Eu estava com muita vontade de estabelecer uma comunicação. Todo mundo sabe o quanto é difícil isso de tentar estabelecer novamente o ritmo da frase que foi quebrada. E aí mudei de assunto. "Sabe que, às vezes, quando estou escutando alguém, sou atingida por um ponto de instabilidade que me faz perder a atenção". É, usei essa expressão. "Por exemplo, deixa eu me explicar melhor, uma mancha vermelha no olho, esse tipo de coisa que eu chamo de ponto de instabilidade. Pois então, quando eu identifico isso, esse tal ponto de instabilidade, eu passo a me concentrar nisso e não consigo mais prestar atenção no que estava ouvindo porque os meus pensamentos derivam pra esse outro lugar". E ela começou a alisar o pelo do gato como se só existisse no mundo três coisas: ela, o gato e sua vontade alisar o pelo do gato. Aquilo pra mim era um pequeno espetáculo. Ela, o gato e a vontade que ela estava de alisar o gato formaram um quadro perfeito e fiquei um pouco em silêncio. Eu não queria interferir nisso. Sei o quanto sou desastrada e o quanto posso interferir nesses quadros de perfeição em movimento que se formam diante do meu olhar. Não quis interferir. Mas é que ela ergueu os olhos e me perguntou: "O que você achou da peça?". O gato escapou das mãos dela e foi ser ele mesmo num outro canto da casa. Gatos não gostam de dividir atenção. "Gostei muito. Achei genial. E você?" Mas eu não estava nem aí pra resposta. Ela não gosta de teatro, eu sei. Ela fica desconfortável diante de pessoas que estão diante dela fingindo que não são elas mesmas e querendo que ela acredite nisso. Mas esperei. Esperei o que ela ia me dizer. E como ela demorou mais tempo do que minha ansiedade poderia suportar, fiz a besteira de antecipar a resposta dela: "Você não gostou?" Ah, isso foi um prato cheio pra ela me olhar com aquele olho de quem está querendo dizer: "Você é muito ansiosa, né?" Mas foi só um olhar. Só um olhar, que eu devolvi também com outro olhar do tipo: "Puxa, se você soubesse que a gente está perdendo tempo nesse lance de ficar falando sobre coisas, sobre peças, sobre qualquer coisa. A gente não deveria falar sobre nada. As palavras é o que existe de mais sufocante. Vamos ficar... um pouco em silêncio. Eu quero ficar um pouco em silêncio." Em vez disso, em vez de perceber o que meu olhar dizia, ela continuou:
- Os atores são ótimos. Mas eu não posso falar muito porque eu não entendo de teatro. Só acho que a peça não tem unidade nenhuma. São colagens com muitos clichês.
O gato olhou pra ela como se tivesse entendido melhor do que eu o que ela tinha acabado de dizer. Percebi isso e fiquei me achando muito incompetente para me comunicar com ela. Dez a zero pro gato. Quase que odiei o gato e o complô que os dois estavam formando ali contra mim. Mas era o gato dela. E estava na vida dela há muito mais tempo que eu. Na verdade, eu tinha acabado de chegar. E era delicado isso. Essa coisa de acabar de chegar na vida de alguém. A gente não recebe um roteiro. Já aconteceu tanta coisa. Porra, eu só queria que passasse logo essa parte toda de não saber o que fazer e essas palavras todas. Bom, eu gostei da peça. E não podia voltar atrás e dizer que eu não tinha gostado da peça. Seria ... muita covardia. Não queria que ela me achasse covarde. Mesmo que eu fosse covarde. Talvez até o gato tenha notado minha fragilidade. Então, só me restava partir pra briga. "Saia dessa de buscar começo, meio e fim. Colagem. É o que temos para o momento. Você é que monta a porra toda." O gato saltou do tapete para o sofá e ficou sentado fixando os olhos diretamente pra mim. Estávamos sentadas no tapete, e a visão que eu tinha era bem engraçada porque era como se o gato estivesse ao lado do ombro esquerdo dela pronto pra cochichar como um pequeno diabo as próximas frases que ela tinha pra me dizer. Ela se sentiu encorajada a continuar.
- Eu li O jogo da amarelinha. E tem unidade. 
"Sim. Muita." Quem era eu pra discordar do que ela estava dizendo. E mais ainda, quem era eu pra discordar do Julio Cortazar, um dos meus autores preferidos. Isso só podia ter sido ideia do gato. Golpe baixo. Mas eu não estava disposta a desistir, se ela continuasse. E ela continuou.
- Eu li Obra aberta, do Eco.
Ah, então é por aí que estamos avançando? O disco terminou outra vez e eu puxei a agulha com cuidado, retirei do prato, guardei na capa. Dedilhei os que estavam ali ao lado até achar o que seria apropriado para aquela situação. Come from the shadows, Joan Baez. "Pode ser esse?", mas antes disso, pra evitar o que havia acontecido antes, quando ela respondeu "Deixa pra lá...", eu disse pra ela que O jogo da amarelinha não valia como argumento. E que, "Ok, a peça poderia ter um esquema mal colado." Mas aí eu caí dentro de um campo de instabilidade quando coloquei o disco na vitrola, porque eu me lembrei do Clube da Serpente e do protagonista d´O jogo da amarelinha. E de como sempre que lia esse livro, eu achava esse cara adorável e filha da puta ao mesmo tempo, mas eu não toquei nesse assunto com ela. Voltei a falar sobre a peça. "A ideia da peça é essa mesmo. De ser uma colagem, você entende?" E então Joan Baez começou a quase rezar uma canção: Bangladesh... Bagladesh... Mas eu não podia me desviar, porque o gato já me encarava com um cinismo irresistível, pedindo pra que eu reagisse ou ele ia achar que eu não merecia mesmo aquela mulher. Mesmo assim, eu ainda pensei no quanto gostava mais da voz de Johnny Mitchell. Ela continuou com vontade de defender seu ponto vista, já que eu havia tocado nesse assunto.
- Eu entendo que não é mais necessário começo, meio e fim. 
Em vez de deixar que ela continuasse, o que eu fiz? Cortei a frase no meio com comentários sequenciados, como um vaudeville que invade o palco no momento mais denso do espetáculo: "A peça é difusa, tem algo de esquizo, gago. Mas e se essa era mesmo a pretensão do diretor? Tudo bem, tudo bem (Ah, ela é tão linda, tão linda com esse gato aí do lado, por que não ficamos simplesmente em silêncio? Por que eu fui escolher Joan Baez, que péssima escolha.), reconheço que tem mesmo algo de pretensioso na peça, isso de querer educar o público e mostrar uma ... mensagem edificante...." Nesse ponto da minha frase, o gato desistiu de novo e foi cuidar a vida dele num outro canto da casa. Ela manteve-se calma. Sorriu como se percebesse que eu estava nervosa e eu percebi que ela percebeu e fiquei tímida, porque fico mesmo tímida às vezes quando percebo que perceberam a minha tentativa de mostrar segurança. Um desastre. 
- No ato dramático (juro que ela usou essa expressão) dessa companhia, enfia-se qualquer experimentalismo e tá feita a dramaturgia. 
Confesso que achei interessante o que ela disse. Gostei da certeza com que ela segurou esse argumento. O pior é que esse lance de experimentalismo já havia me irritado em algumas tentativas desastrosas de produzir literatura. Se era bom, era excelente; mas se era ruim, era como um peixe ensaboado. Por mais que se quisesse provar que era ruim, havia sempre a possibilidade de alguém justificar o quanto era bom. Enfim, eu estava quase começando a concordar com ela. mas aí lembrei de outras peças com essa mesma... vamos dizer... pegada. E insisti. "Você viu aquela releitura d`A gaivota? Veio o ano passado pra cá. Ficou pouco tempo. 
- Vi sim. Gostei. Ainda que, burra, não tenha entendido tudo. Eu preciso ir mais ao teatro. O lance é que eu não gosto muito de teatro, eu já te disse isso. Mas talvez seja porque não entendo. 
"Não diga isso. Você está me chamando de burra quando diz que você é burra." Assim que falei isso, repeti a frase pra mim mesma pra ver se o que eu tinha dito não era uma coisa... sem sentido. E nesse momento Joan Baez começou a cantar Imagine e eu tive que interromper o assunto: "Posso pular essa música?". Ela fez um ok com a cabeça e prosseguiu com o assunto.
- Olha, é sério, eu não tenho estofo nenhum pra discutir teatro. Vou quase nada pro teatro e não me vanglorio não.
"Tudo bem, eu entendo o que você quer dizer, mas é que quando você vem com essa de que é burra e não entende nada sobre teatro e mesmo assim me dá vários argumentos de que a peça pode ser mesmo ruim eu fico sem saber o que dizer. E, olha, você pode ter razão. De repente a peça é mesmo ruim e eu não percebi. Então vamos começar de novo, Você sabe por que eu gostei da peça?. Vou te dizer. Eu fiquei feliz porque vi que as pessoas estavam gostando e pensei, caralho, as pessoas estão gostando dessa coisa fragmentada?! Isso eu também sei fazer! Pode ser que seja mesmo interessante isso. Pode ser que as pessoas estejam prontas pra gostar do que eu faço... 
- Pare com isso. Você escreve bem. E eu só fui ver a peça porque você me convenceu de que o diretor era muito bom. Os clichês, ah, talvez os clichês não tenham comprometido nada mesmo...
O ponto de instabilidade interferiu de novo. Mas não tinha a ver com nada do que estávamos falando. Eu estava mesmo era pensando nas palavras. Estava mesmo era pensando em como se perde tempo com isso de sobrecarregar demais o outro com mil questões como um barco à deriva; aliás, dois barcos em oceanos distintos e um mar de argumentos em volta e a tentativa de compreender e convencer e compreender. Na realidade, eram só fragmentos. Enquanto isso o gato ficou junto dela novamente. Ela começou novamente a acariciar o pelo dele. Ficamos em silêncio. Não havia necessidade de nenhuma palavra. E quando Johnny Mitchell começou a cantar, ela ergueu os olhos pra mim e sorriu e ficamos assim por um bom tempo. Era somente uma sensação. Uma ótima sensação. Nada mais.
E a peça. Bom... foda-se a peça. 

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

estudos para um narrador confuso



Uma única uma que olha uma que observa uma que vê uma que está parada em um lugar dela mesma a mesma ela que observa a si ela mesma ali a observar-se. 

Toda tempestade começa com um breve mover de folhas. 

Como qualquer uma que não se interessa mais pela questão crucial, a menos que, exato, a menos que, talvez a questão crucial a interesse, sim. A boca está fechada agora, mas passeia em volta dos lábios uma pequena aranha. Existe prazer nisso de sentir um inseto passear sobre a pele. Existe prazer em praticamente tudo. Talvez o prazer se esconda em algumas partes do corpo, mas a aranha não está pensando que provoca um prazer quando passeia em volta dos lábios pois é impossível a esse pequeno inseto pensar a forma inteira do ser sobre o qual passeia. Os pés tocam a pele percebendo somente aclives e declives - não identifica a boca como o lugar onde nascem os beijos. A aranha não compreende um beijo. No beijo as bocas se compreendem. Pensar enquanto beija é sair do sonho da aranha que imagina aquele canto dos lábios como uma pequena fonte. Pensar durante o beijo é perder-se dentro do próprio corpo sem escapatória. Então, o passeio da pequena aranha... Uma única olha-se agora diante do espelho. Aproxima o rosto o próprio rosto o rosto dela mesma e acompanha o percurso da aranha na curva dos lábios, sua insistência ingênua forçando passagem pelos cantos onde brota a saliva. Uma  a que olha abre a boca vagarosamente. Uma a que sente percebe que agora a loucura vem com uma permissão suave e sem constrangimento. Uma ela mesma e não a outra que a observa sendo também ela mesma mas na condição única de observadora sem julgar sem esperar nada do próximo segundo pois todas as horas reservam abismos como as folhas que se movem antes da tempestade. Uma ela mesma olha permitindo a entrada da pequena aranha no vale escuro da boca. Será que ela sairia dali? Não pretende ir a parte alguma, a aranha, e ela mesma também não pretende se afastar dali até que se defina um nome; por isso uma ela mesma está cindida: uma observa e sente enquanto a outra suporta que a aranha em seus passos de sombra mova-se em torno dos lábios, agora prestes a avançar pela entrada da boca. É um exercício bem simples pois não depende de ninguém. Agora a pequena aranha entra na boca. É preciso compreender que ela não estava lá antes. Não veio do teto num fio colado descendo com presteza enquanto ela a que passou a observar e sentir deitada no tapete da sala olhava para o teto e pensava que precisava de um nome. Não foi assim. O que vale é que agora as perninhas se mexem com dificuldade pela língua úmida. Uma a que observa ela mesma esse percurso da aranha se lembra de uma tarde em que uma luz se derramava sob a colcha da cama sobre a qual uma moça nua sorria. Uma ela mesma imagina uma moça nua deitada sobre a cama. Percebam, são duas naturezas distintas: a cama e a moça. No dia em que a cama chegou ali teve que ser carregada pelas escadas. Dois homens tiveram que empreender suas forças naquele sacrifício de carregar a cama por nove lances. Ás vezes eles paravam e limpavam o suor, olhavam-se quietos aguardando o próximo movimento como numa dança ingrata. Respiravam fundo e seguiam. Até chegar ao quarto e decidir-se o canto em que a cama iria ficar. Ali? Não, ali é melhor. Ali, então. Próxima à janela. E ao entardecer daquele mesmo dia, uma luz incidiu sobre a cama e permaneceu até o surgir da noite em que houve lua e o reflexo invadiu o quarto em um tom azul muito difícil de ser reproduzido artificialmente. A moça não. Ninguém carregou a moça até ali. A moça veio, despiu-se, deitou-se e sorriu. Uma ela mesma - a que observa e por alguns momentos distrai-se pensando na cama e na moça - percebe que a aranha agora avançou mais um pouco e já quase alcança a garganta provocando uma leve cócega. Nesse momento é que o vento fica mais forte agitando com violência as folhas espalhadas pelo chão. Nesse momento uma ela mesma cospe a aranha na pia. É assim. Desse exato modo, ela mesma uma precisava de um nome. E o nome ali, úmido e disforme sobre a porcelana da pia. O nome é Ana. O lume. O númem. Ossos, carne, linguagem e vontade. Antes de Ana, nenhum mundo. Somente o rosto de uma ela mesma colado à face das águas aguardando com todos os sentidos e as palmas das mãos e os pés a rótula dos joelhos e mais os buracos do corpo nervos garganta tudo envolvido. Tudo à espera. 

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

o céu revirado em dois

Triste como um gato na chuva
Essas ruas gritam nomes


É preciso esquecer esquecer esquecer
E o céu se revira em dois

Meus olhos e ouvidos cegos
Retirar do mundo
Imagens que perturbam o coração

Mas dentro do coração
E nas ruas
O céu revirado em dois


Nunca jamais talvez algum dia amanhã
As mãos da cantora me dizem
Enquanto a voz invade todo o espaço


Ao passo que logo cedo de manhã
Uma borboleta negra adentra o quarto




segunda-feira, 2 de novembro de 2015

A versão feminina do Woody Allen: até o próximo assédio



     
Tudo o que não for ficção é a sobra da realidade...

Aconteceu porque estávamos lá e teria acontecido com quem estivesse lá – desde que fosse mulher. Nunca mais se falou sobre isso. Ficou enterrado em algum lugar em nossas memórias. Também nunca mais nos falamos depois disso. Eu lamento, porque não foi nossa culpa.
            Fui encontrar você à tarde num café perto daquela praça onde fica o monumento a Camões. Havia um café muito bom por ali, talvez ainda exista, mas agora não costumo andar por aqueles lados. A luz da tarde de setembro estava em harmonia com a minha vontade de te ver e de conversar contigo. Eu admirava muito o seu jeito de ser e se vestir e as coisas que falávamos sobre poesia eram reais, pois a gente vivia de ler livros e acreditar no que líamos e querer talvez fazer algo que comunicasse pelo menos um mínimo da substância poética que os grandes autores haviam deixado entre as páginas. Você sempre me pareceu uma boneca de louça. A pele muito branca e delicada, quase quebradiça. As músicas que você ouvia e os trechos de poemas em francês ou inglês ou alemão que você recitava para pontuar alguma coisa que havíamos dito saíam de ti de modo muito natural, sem qualquer vestígio de pedantismo. Ao teu lado, eu parecia um replicante que poderia a qualquer momento levar um tiro do caçador de androides; sempre respirei mal, um desespero de achar que a felicidade pode ser cortada ao meio e, separadas as duas partes, eu cairia naquele fosso entre o nem feliz nem infeliz, esperando até o próximo momento de felicidade. E aquele nosso encontro era o meu próximo momento de felicidade. Não tinha a ver com sexo, era de outra natureza o que movia meu afeto em relação a você. A tarde sabia disso; as folhas caíam lentas dos galhos até o chão e, nesse percurso, eu esboçava sorrisos e ia tomando uns goles quentes do chá e pensando que tudo havia sido previamente programado por algum oráculo. E você, com sua roupa inusitada, parecia ter saído de uma capsula, vinda direto do século XIX quando há pouco tempo teria trocado algumas palavras com Emily Dickinson; era uma imagem suave para os meus olhos. Os meus circuitos eletrônicos vibravam, ainda que de vez em quando eu costumasse olhar para trás só para confirmar se Rick Deckard não estava no meu encalço. O melhor de tudo isso é que eu não estava apaixonada por você. Não havia nada que distorcesse a imagem. Você era exatamente você; e isso era incrível. Essa união fraterna de te ouvir e saber que uma criatura singular estava ali comigo. As luas negras de teus olhos boiando no céu branco e os cílios em volta, as asas do nariz movendo-se leves no meio do rosto enquanto você falava; e logo abaixo uma boca pequena meio nipônica, mas de uma origem que eu não conseguia identificar direito pois para mim você pertencia mesmo ao universo de Jonathan Viner; quando alguém te convidava para sair, você se descolava de uma caixa ou de um quadro de Viner com a exata roupa que queria vestir aquele dia.
           
Então, depois de termos conversado e tomado o chá eu perguntei se você não tinha interesse em ir para o evento de literatura que estava acontecendo na cidade. Todos estariam lá. Todos? Que todos? Ah, as pessoas que escrevem. Os poetas, os escritores. A gente fica só um pouco. Talvez nesse momento eu tenha ouvido tocar os sinos da igreja que ficava perto dali. Talvez fosse só a música de perseguição que começava a escorrer na narrativa daquele dia, indicando uma mudança na vibração no mundo dos replicantes. Indicando que, se fôssemos espertas, ficaríamos ali conversando mais um pouco e depois iríamos embora cada uma pro seu destino. Escuta, nós também somos poetas. Nós temos que interagir, participar desses eventos, se não ninguém nunca vai ler o que a gente escreve, eu insisti. Eu tenho vontade de ir logo morar em São Paulo. Aqui me parece tudo tão monótono; quando acontece alguma coisa relevante é bom aproveitar, pois parece que não vai se repetir. É uma cidade inaugural. As coisas não têm muita continuidade. E quando converso com as pessoas sobre ideias e projetos, elas me olham como se eu fosse uma garota que não tem muita noção da realidade. As pessoas não me levam a sério aqui. É isso que eu acho. Você acha isso mesmo?, eu perguntei. Não é o que eu penso. Gosto muito dos teus poemas e acho que eles traduzem muito bem tua personalidade. É que o mercado editorial é difícil mesmo. E aqui ele praticamente não existe. Então você me disse que estava conversando com um poeta do Rio de Janeiro, que estavam pensando em se encontrar em novembro, mas não no Rio, em São Paulo. E nisso, claro, eu já imaginei o quão difícil deve ser dois poetas conviverem e se relacionarem. Logo eu que sempre me relacionava com pessoas que pouco ou nada tinham a ver com literatura; mas que mesmo assim eram excelentes pessoas. 
            Fomos andando até o Memorial da Cidade, onde aconteceria o evento. No caminho eu fiquei com receio de encontrar algum dos meus amigos chapadões, pensando que morreria de vergonha se ele começasse a conversar coisas estúpidas com você e tentasse jogar charme pra cima de você. Acho que por um tempo vivi isso. Essa coisa de querer preservar uma atmosfera já instaurada e não deixar que ela se perturbe por nada. Eu tinha medo de que, a partir dos meus amigos, pelos menos dos mais malucos, você descobrisse que eu não tinha muito controle sobre minha vida. Mas era tudo bobagem, pois eu tinha controle total sobre minha vida, a ponto de quase enlouquecer. É que eu sentia que não dava muito certo isso de misturar as turmas. Talvez os meus amigos também pensassem assim – tanto que eles raramente se misturavam; só quando rolava naturalmente. Descobrir alguém novo, alguém que tinha uma realidade completamente diferente da minha, fazia com que eu já me isolasse do grupo e fechasse completamente com esse novo amigo me esquecendo dos outros por um tempo. Até eu sacar que esse novo amigo estava fazendo o mesmo e nisso nós quebrávamos a regra e juntávamos as turmas e todo mundo podia ser bem idiota e feliz tudo junto. Não éramos pedantes. Éramos só nós mesmos. Frágeis seres contaminados de poesia e memórias juvenis. Eu queria no fundo era ser uma adulta. Se é que você me entende.
            Quando chegamos no Memorial a conversa já havia começado. Eu fui olhando as cabeças e, realmente, o lugar estava cheio de poetas. Me deu uma sensação estranha de que eu queria estar numa outra cidade de um outro país, onde eu não conhecesse ninguém e estivesse ainda aprendendo o idioma. A minha ideia de escrever era oposta a ideia de multidão, encontros literários, entrevistas para o jornal da cidade, autógrafos. Nada disso eu achava que tinha a ver com literatura. Portanto, ficava triste quando estava nesses lugares. Como se aquilo representasse algo que ferisse o literário, pois o “literário” estaria acima do banal e corriqueiro no mundo. Menos sexo, claro. Pois era farto o uso da literatura & outras artes para esses fins. Poemas e filmes, por exemplo, eram comentados e compartilhadas com o fim único de seduzir alguém – a covardia básica do ser humano; não é a toa que a Mônica queria ver o filme do Godard. Essa era eu, sozinha em meus pensamentos como numa bolha imaginativa. O que me dava um certo tédio. Você estava ao meu lado. Sua estatura pequena e inteira, com os gestos exatos adquiridos até aquele momento; as cores da tua maquiagem quase teatrais – não era certo que aparecêssemos juntas, pensei. Talvez aquilo fosse meio que queimar tua pose. Eu era a escritora louca. Suicida. A que berrava os textos como um jato de vômito. E que, sim, usava a literatura desesperadamente para tentar seduzir quem quer que fosse. A escritora que ficava muito puta por ser sempre os homens os que eram considerados nos anais literários, feiras, jornais, revistas, eventos – tudo o que destruía a literatura como substrato real do real. E aqui havia uma contradição – eu não achava isso importante para a coisa, mas era de fato a parte profissional da coisa. Se alguém quisesse se tornar escritor, o limite além do texto era aquele das feiras, das publicações, dos eventos. Mas cada vez mais eu via que a plateia ia se enchendo de escritoras que assistiam aos eventos e escritores que eram o centro do evento. Então aquilo era mesmo de encher o saco. O ruim era alguém vir dizer que nós produzíamos literatura feminina. Literatura feminina é o caralho! – grito e coquetel molotov na velha porta de correr da livraria do C****. Isto posto, eu vi que queria mesmo era estar em outra cidade de um país cuja língua eu não dominasse. Não sabia que isso já estava acontecendo; aqui eu estava em uma cidade de um outro país cuja língua e códigos eu não dominava. Por isso essa tensão permanente do carinha que chega diante do porteiro kafkiano e espera décadas até constatar, pela autoridade, que ali ele não poderá entrar. Mas antes que o porteiro dissesse isso eu me levantaria da cadeira e explicaria pra ele que eu queria só pegar um sonho no carro do sonho que estava passando. Frase (ambígua) que define a cidade.
            Estávamos sentadas lado a lado; você quieta ouvindo o tema, talvez pensando, talvez gostando; e eu imersa em uma rede de pensamentos paralelos. Depois do “evento” alguns poetas vieram falar com você e querer saber o que você andava escrevendo. E se a gente não queria sentar na mesa deles para beber alguma coisa. Você olhou pra mim silenciosa como se perguntasse O que você acha? Eu pensei que tudo bem. Não tinha problema nenhum. Que problema poderia haver? Éramos todos escritores e poetas e poderíamos sentar na mesma mesa de bar e falar sobre literatura e sobre coisas superiores, coisas do espírito. Ãhan!
            No bar eu já divisei Deckard sentado em silêncio numa mesa distante da que todos estávamos. Ele fazia o tipo quieto e concentrado tomando seu whisky e de vez em quando trocávamos olhares como quem combina uma senha. Você me dá uma trégua por enquanto só para eu atravessar essa noite aqui com essas pessoas e amanhã pode começar novamente a perseguição, ok? Nesse intervalo de olhares eu ativei a técnica de ouvir uma música bem alto até que o silêncio explodisse dentro da minha cabeça e então olhei para todos ali, estudei as expressões, a intensidade do brilho de cada olhar, os gestos das mãos e a medida térmica que o corpo ia produzindo a ponto de deixar o rosto vermelho e um pouco inchado. Na mesa éramos em uns quinze; inclusas duas esposas de poetas, que estavam ali um tanto constrangidas com sua inútil figuração, justamente por perceberem que os seus respectivos maridos se tornavam outras pessoas quando interpretavam publicamente o papel de poetas. Além dessas duas, eu e você – as outras. Eu te olhei e dessa vez te vi como uma peça de um antiquário diante da qual todos davam lances, levantavam as mãos para cima e giravam o braço, excitando algum verso, claro que do Leminski, com a atenção toda voltada para você – a boneca que despertava nesses homens uma espécie de competição. Não para ler ou conhecer o que você escrevia. Mas para estraçalhar você com unhas e dentes e paus na primeira oportunidade. Antes de poetas, eram todos machos. Fiquei um pouco triste, pois você não pareceu entender o que estava acontecendo. E você estava agindo naturalmente. Sua mão pequena e branca segurava uma taça com um drink desses fracos que ao se repetirem com muita frequência conseguem derrubar um leão. Eu queria tirar você dali. Eu queria dizer Vamos embora, aqui não está bom. Mas já que eu estava ali a paisana e que minha condição fake de androide não estava dando muito na cara, decidi me humanizar. De que lado eu poderia entrar na disputa? Você era o objeto de desejo dos poetas ali, eles estavam em plena atividade de luta, cada um oferecendo o que melhor podia nessa briga. Eu passei para o lado de quem tenta desarticular as ofertas.  Considerando que a minha meiguice é algo que aparece a cada aproximação de um insólito cometa, adotei a postura sarcástica e mordaz como forma de defesa. Era assim que geralmente era.
            Seu rosto adquiriu uma expressão nova. Achei que você já havia escolhido, entre os pretendentes, aquele que lhe aqueceria o coração – com perdão do fonema gutural. Deckard ainda estava lá; quando eu olhei, ele retirou o copo do rosto e fez aquele risinho de canto de boca e o olhos quase fechados. Eu entendi o que ele queria dizer. Era mais fácil perseguir replicantes do que cuidar da integridade física de uma poeta ingênua. Dali em diante eu vi que não poderia ir embora sem você. Nesse momento, chegou o barão.

            O barão usava luvas. Bem vestido. Sóbrio. O que lhe dava uma vantagem perante os demais. Já passava das duas e eu tinha esperança de que você dissesse Vamos chamar um táxi. Mas você não disse. E o poeta menor (porque mais jovem) foi sentar-se ao seu lado. E eu vi que isso não era uma boa coisa.
            Enfim, o barão disse Que tal se fôssemos todos para o meu bar? Eu tenho um Porshe, eu tenho posses e uma filha deliciosa que mora no coração de Manhattan. Conhece Manhattan. Ou pelo menos já viu Manhattan? Foi pra mim que ele virou e perguntou. Sim. Inclusive eu sou a versão feminina do Woody Allen. O comentário parece não ter sido muito bem recebido. Eu só queria fazer uma piada; uma piada antiga, aliás, porque os meus amigos todos falavam isso de vez em quando. O problema é que o barão grudou em mim, enquanto o poeta menor grudou em você. E depois que ele cochichou alguma coisa no teu ouvido eu vi você concordar que não era uma má ideia se fôssemos todos para o bar do barão. Já estaria fechado e poderíamos aproveitar os melhores drinks. I don´t know the question, but sex is definitely the answer ... Virei para o lado e vi que Deckard não estava mais ali. A mesa restava vazia sem vestígios de que alguém a ocupara antes. Talvez o origami de um cordeiro tivesse sido largado ali. Senti muita solidão nessa hora. Vi para onde as coisas estavam indo e não pude recuar. Aquelas alturas éramos só nós duas de mulheres e mais quatro homens que queriam nos tirar dali, de um lugar público, para nos levar para outro lugar, fechado e território deles. Eu já sabia como era isso. Outras vezes já havia presenciado esse tipo de cilada. Mas você estava contente. Seu rosto estava rosado e seus lábios muito vermelhos. Eu pensei em Branca de Neve. Pensei na minha namorada que devia estar em casa dormindo depois de ter encarado plantão punk. Lembrei de olhar para o celular e vi que tinha uma mensagem de Boa noite, amor. Amanhã a gente se fala. Fiquei mais triste ainda. Então era isso. Decidi que ia com a boneca até o fim. Sim, pois pra mim você era uma boneca que havia saído da caixa ou de um quadro de Viner para um passeio. E provavelmente, depois daquela noite, não voltaria mais a se amarrar com aqueles pequenos grampos. Mas eu confiei no futuro e pensei que afinal éramos todos pessoas elevadas. Não iria acontecer nada.
            Chegamos ao bar do barão. Já passava das três, a noite estava fria e de nossas bocas saía aquele vapor branco quando expirávamos. O poeta menor mantinha o braço enlaçado em volta do seu ombro. O barão enfiou a chave na fechadura e, antes de dar a volta completa, tornou o corpo curvado para todos nós e abriu um sorriso de vilão como se estivesse prestes a entrar na Fantástica Fábrica de Chocolates. Do que se trata, afinal? Eu pensei. Que coisa mais teatral. Que sujeito mais teatral. Ele foi entrando e ficou do outro lado do balcão junto com o poeta sedutor. Do lado de cá ficamos eu e o poeta-pop, de quem não é necessário falar. De onde eu estava via suas costas e metade do rosto do poeta menor, que não parava de mexer a cabeça de modo lento enquanto sussurrava em seu rosto sabe-se lá quais frases soltas. Desta vez, sem sombra de dúvida, você me pareceu a Betty Boop.
            O barão foi abrindo umas garrafas de rótulos lindos que ele virava para nós explicando a origem da bebida, teor alcoólico e composição. Eu achei aquilo educativo. Ele dispôs quatro copos pequenos sobre o balcão e foi servindo as doses. Parece que nessa hora eu ouvi um trovão e pensei que o dia seguinte já estava nascendo e nós ainda estávamos ali. E você, Woody Allen, também fica excitada quando bebe? Os dois poetas ficaram sérios, ajeitaram os óculos e dirigiram o olhar para mim esperando uma resposta. Era um time de três contra uma. Eu não sabia o que dizer. Me dei um tempo para responder melhor. Tomei mais um gole e percebi que você e o poeta menor não estavam mais na mesa. Tinham simplesmente sumido do meu campo de visão. Você tem água? Preciso tomar um pouco d´água. Se não vai me dar teto preto. Que é isso? Água? A gente mal começou a brincadeira. Como é que você pode pedir água. Nada disso. Ainda tem muito sabor pra ser experimentado aqui.
            Escuta, eu preciso tomar água, é sério. E daqui a pouco a gente precisa ir pra casa. Que é isso, deixa disso. Relaxe. Estamos todos entre amigos. Mas você é um amigo com peitinhos. Não quer mostrar pra gente seu potencial poético? Os dois poetas riram e se alinharam com o inimigo. Eu estava sozinha no campo de batalha. E em algum lugar do bar você e o poeta menor se escondiam. Escute, não é porque você fodeu a buceta da tua filha que pode ser indelicado com as bucetas alheias. Essa buceta aqui tem mãe. Ele fez um cara de ódio enquanto enroscava bem devagar o vidro da bebida azul que tínhamos acabado de tomar. O olhar ficou mais agudo e no que ele mordeu os lábios com força a mão veio direto no meio da minha cara. Em cheio. Um tapa. Era isso que você queria a noite toda, não era? Os dois outros vieram pro meu lado, perguntando se eu estava bem. Que é isso, cara?! Pra que isso? É o que ela queria, vocês não perceberam? Ela me provocou a noite toda. Estava esperando o quê? Minha boca ficou fechada. Meu corpo esquentou por dentro e eu só queria ter uma arma. Só isso. Sairia atirando em todos ali. Mas eu me senti vencida. E pensei em ti. Mas nem deu muito tempo pra pensar muito pois quando olhei para o lado vi você saindo de um corredor escuro e o poeta menor vinha atrás, cabisbaixo e atônito. Quando você chegou perto, notei que o seu nariz estava sangrando. Vamos embora daqui. Quero ir embora daqui, você não parava de repetir. Vamos embora. Me leve embora. Eu quero ir embora daqui. Você me leva. Vamos.
Mesmo que estivesse escuro dentro do bar, lá fora o dia já estava amanhecendo. Saímos abraçadas e cambaias; andamos umas duas quadras em silêncio até um ponto de táxi. Você soluçava. Eu não sabia muito o que pensar ou o que dizer – nunca soube o que aconteceu com você enquanto eu estava com o barão e com os outros dois; e nem contei a você que o barão tinha me acertado um tapa em cheio no meio da cara. O táxi parou em frente ao teu prédio; você se despediu chorosa, a maquiagem derretendo no rosto branco. Depois eu segui no mesmo táxi pra minha casa. Minha cabeça pesava num canto da janela. Meu corpo era só cabeça. Ou melhor, eu era A mulher sem cabeça, como no filme de Lucrécia Martel.
O dia nascia indiferente a toda a noite anterior. As mulheres caminhavam dispostas para mais uma rotina de escracho em oito horas dentro de salas de escritórios onde havia assédio; dentro de bancos, onde havia assédio; dentro de restaurantes, onde o assédio era frequente; nos cafés, nas praças, as travestis e as prostitutas, muito assédio; em suas casas, em suas cozinhas, as mães eram assediadas por seus filhos e filhas e por seus maridos; as estudantes, nos cursinhos pré-vestibulares, e no ensino fundamental; as meninas, no pátio da escola; diariamente, assédio; nos hospitais, doentes e enfraquecidas, em coma, sedadas e assediadas; nas revistas masculinas que serão folheadas por mãos urgentes que puxarão o pau de dentro das calças para bater uma punheta nervosa num intervalo do trabalho, num intervalo da aula, num intervalo do dia, como o papai ensinou que um homem deve fazer, foder muitas bucetas gostosas até a última gota; nas entrevistas para emprego; nas escolas, quando as pedagogas pedem às professoras cansadas que estas devem ter mais controle de turma, assédio de mulheres contra mulheres; nos programas de televisão, meninas, mulheres e meninos assediados sem piedade; quando entram em suas casas, sozinhas, e tiram toda a roupa suja da noite e ficam nuas diante das janelas, chorando, se sentindo sem sorte no mundo, e deixam a roupa afundar no fundo da máquina, jogando muito sabão e enchendo tudo de água, depois ficam vendo a roupa girar; e quando a namorada ou o namorado pedem pra elas usarem pouco decote e pouca maquiagem, assédio escrachado; e o corpo nu, despejado dentro do dia, com as memórias todas ainda girando na cabeça; tentar limpar; entrar no chuveiro, deixar a água escorrer, deixar tudo limpo, esquecer, não falar, não comentar, silenciar; matar dentro do corpo o que mata o corpo.

Até o próximo assédio.           

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

mulher é tudo louca


A casa acordava de manhã com ela. Do lado da cabeceira, nenhum livro, mas o rádio de pilhas. O locutor do programa dizia a todo o tempo a hora certa. Ela ficava ouvindo as modas de viola e ajeitando o corpo para o acordar. O mesmo corpo da véspera ou teria se modificado um tanto? As dores nas articulações pareciam piorar, mas à medida que ela fosse se agitando para dar conta de todos os afazeres, elas se aquietariam. Os olhos vasculhavam um passado enorme de filhos e filhas e netos e a eterna luta pela sobrevivência. Era uma mulher que sobrevivera. Quantas alegrias seu corpo havia realmente experimentado? Ela se pertencia a si mesma? Talvez, nesses gestos mínimos que ressalvavam hábitos, ela se pertencesse a si mesma. Ao ouvir o radinho de pilhas logo cedo de manhã, quando todos dormiam o último sono, ela se sentia um pouco livre. Mas o primeiro que abrisse os olhos e pronunciasse a palavra “mãe” e com menos violência, a palavra “vó”, já instalava sobre ela um poder de deixar de existir e passava a ser a que servia, a que respondia sobre onde estavam os objetos mais banais, ou qual seria o cardápio da noite, e com as orelhas rasgando de dor, naquela manhã ela deveria responder a um inquérito brutal à filha mais velha: Como que o azeite já tinha acabado se da última vez que fizera mercado vieram três litros de azeite para casa? E se ela, a mãe, não tinha noção de onde saía o dinheiro. Os olhos parados no meio da cara, olhariam o rosto furioso da filha, e talvez trouxessem a exata sensação de quando ela escorregara de dentro de seu ventre para o mundo, resgatada pelas mãos de uma parteira, igualmente mulher, igualmente banida das importâncias de ser e existir no mundo. Ela olharia os olhos da filha e veria a boca se mexendo como uma máquina de produzir gritos. Talvez que a filha estivesse infeliz, sim era isso. A infelicidade modelou aquelas palavras brutais e aquele semblante severo em suas feições. Antes era só uma criança. Era só mais uma mulher, uma outra entre tantas filhas. E sua infância havia sido de uma rudeza tão gritante que os mínimos momentos de beleza eram todos vividos, também, de modo clandestino. A filha talvez não se pertencesse a si mesma. Havia sido raptada pelo mundo. A filha mais velha, essa mulher do mundo, atendia a chamados urgentes e resolvia questões urgentes e ganhava o dinheiro para suprir as necessidades da casa e se dava ao direito de berrar logo cedo de manhã com a mãe porque isso a fazia se sentir bem, pronta para o mundo. Pronta também para receber os homens que compartilhavam do mundo com ela. A mãe talvez não pensasse isso, mas sabia que havia um propósito sutilmente preparado para justificar aquela gritaria logo cedo. Ela estava se fortalecendo. Derrubar um pai ou uma mãe, derrubar a moral de um filho ou de alguém a quem muito se ama logo cedo de manhã, gera uma força violenta para enfrentar o mundo. Sim, talvez fosse isso. A mãe teria que compreender. E a filha sabia que a mãe compreenderia. À noite, quando voltassem, nem iriam mais pensar nisso. E antes de sair para o mundo, ela passaria o batom diante do espelho, arrumaria o cabelo do jeito como deve ser, sem qualquer pensamento, teria certeza de seu poder de mulher no mundo, pois se havia destruído a mãe com algumas palavras, o que não poderia destruir se viesse diante dela, pra cima dela ao longo do dia? Seria isso? A mãe sofria quieta, lembrando-se de que, realmente, daquela vez foram três litros de azeite (daquele da marca boa) que ela havia trazido. E agora o último estava vazio e por isso ela anotou na lista de compras, com a letra que usava com mais frequência para esses afazeres, bilhetes, recados, e quando muito, em alguma ocasião, enviava um cartão de aniversário para algum parente distante que ainda morava lá de onde eles, os retirantes, vieram; e também as felicitações de Natal e Ano Novo. Mas ela deveria fazer a lista, antes de deitar, ela deveria ter feito a lista de compras e deixado em cima da mesa. Por isso ela anotou, com dificuldade, pois não gostava muito de usar esferográfica, anotou tudo o que faltava, entre barras de sabão, detergente, desinfetante: “azeite”. Ela alçou o avental por sobre a cabeça como quem se preparava para o dia, aquele longo dia de tantas roupas para lavar e louça e os netos menores que ela também devia alimentar. E quando estava lá, terminando o café, a filha sentada à mesa, fumando, ela enxugou as mãos e apresentou a lista à filha. Estava pronta a lista, sentia-se até orgulhosa de ter feito tudo na véspera, de ter adiantado umas coisas, pois logo mais à tarde ela sairia com a neta até o centro. Era essa a sua função, dar conta da casa, manter a casa e o fogo em movimento para que houvesse comida e para que as roupas de dormir e vestir estivessem limpas. Apenas isso. Ali estava tudo, palavra por palavra; e entregou a lista para a filha, enquanto servia o café quente na xícara da filha. Com o cigarro aceso e uma xícara de café cobrindo a metade da cara, a filha leu a palavra “azeite”. E a partir daí o inferno com os seus mil braços sinistros tomou o espaço daquela cozinha numa plácida manhã que havia nascido simples e como as manhãs de sempre. O sol pela fresta das janelas fazendo aquela partitura sutil na parede do quarto. O corpo do marido ao lado, envelhecendo e enfraquecendo cada dia mais. A moda de viola entrecortada pelo aviso da hora certa. Tudo igual até o momento da leitura daquela palavra. Logo naquele dia em que ela havia se preparado para ir ao centro da cidade tirar o retrato para fazer, finalmente!, a carteira de idosa e poder com isso ter mais liberdade para suas coisas quando quisesse, visitar alguém, ir até o cemitério, uma feira, o que fosse. Logo naquele dia que era justamente véspera da neta com a mão machucada voltar pra casa porque já estava ficando boa a cicatriz e não havia mais necessidade de ela estar ali na casa. Naquele dia, aquela confusão, aqueles gritos por causa de um litro de azeite. Não tinha o que dizer. Olhou para filha como se pedisse desculpas. Desculpas por estar ali ainda. Por não ter morrido. Desculpas por ser ela a dar a notícia do azeite que faltava, mesmo que soubesse o tanto de dinheiro esbanjado em cervejas e cigarros enquanto elas varavam a noite jogando o carteado. E nas viagens com os amigos em que a filha fazia questão de bancar a passagem dos que não podiam pagar, porque tinham uma mãe doente em casa. Desculpas, ela pedia, desligando o fogo pois a água já havia fervido e era bom também não gastar tanto gás. No cinzeiro, dois cigarros com a marca de batom quedavam-se quietos, assustados. Os gritos estremeceram as paredes. Os outros filhos passavam pelo corredor apressados, nem pensaram em café, pois que poderia sobrar alguma chispa pra cima deles. Saíam da casa como se escapassem de uma guerra. Nenhum para levantar a voz em defesa da mãe, afinal era só a mãe e a mãe já estava acostumada a tudo isso. De vez em quando isso acontecia, devia ser a tpm da filha que fazia ela acordar com a macaca. Vá saber. As mulheres são assim mesmo. Mulher é tudo louca.






domingo, 5 de julho de 2015

Doble

Na hora em que os cães uivam
Começo minha oração

Para que minhas preces se misturem
Ao ganido puro das bestas


Um centauro dorme no jardim
E sonha com joelhos humanos
Na extensão de duas pernas
De sua boca colada a folhas
Exala um odor que se forma
Do pelo de sua garupa
Dos cascos de suas patas
Dois rios de sangue se misturam
Na altura do ventre
A parte gente invade o lado cavalo
E é nesse instante, o moço esguio
A caminhar pelo jardim 
Avista um centauro dormindo
O dorso relaxado de um homem
Preso ao potente volume animal
Pegadas fundas cavadas na terra
Bosta secando perto de flores
O arco e a flecha largados 
O moço não pensa, apenas recolhe-os
Retesa o arco
Ajusta a mira e lança a seta
Num susto de abismo, o centauro ressona, 
Abre e fecha lentamente os olhos
Na fina tela da retina registra-se a imagem de um rosto, gêmeo do seu
Cabeça pendente e arma em punhos

Faz-se a primeira tarde da eternidade