quinta-feira, 5 de maio de 2016

pernas de sereia

pernas de sereia

nenhuma música ressoa
- silêncio sobre silêncio
excesso insuportável
de ausência
o cristal entregue à criança
tempo de chuvas
perturbações
distorções de sentido
luz intensa
cegueira, vertigem
o corpo desviando-se
das sombras
fugas, recolhimentos
distância entre ouvido e grito

cristal
antes a tudo imune
entregue às mãos da criança

tecer novamente
um ritmo que se faça música
partir do deserto
e encontrar a sede exata
partir das mãos
e medir o espaço do abraço
na trilha escura divisar
o olhar vaporoso do amor

lâmina e suspensão
segurar o sonho
antes que dissolva
beijar os pulsos
antes que expirem
sorver o ar desimpedido
partir do que foi partido

o cristal escapa das mãos
estilhaços de luz dentro dos dias
a alma, toda azul invade o quarto
onde anjos suicidas
recapitulam o instante
imediamente antes
em que os lábios
ensaiariam o gesto exato de um beijo

terça-feira, 19 de abril de 2016

Se isto serve como um poema



os três e eu ali éramos
uma pequena estrutura de desastre
pronta para ser ativada
quando eu começasse a falar

antes de chegarmos à sala
onde aconteceria a defesa da tese
(sim, é disso que trata o poema
- e não do fato de aquele especialista
tomar o autor como sua propriedade)
antes, como já mencionado 
no quinto verso
fui a um café com um amigo
e ele me perguntou se eu estava preparada

nesse mesmo instante,
a moça do café se aproximou
e como uma criança prestes a ouvir
a primeira palavra de um ditado
aguardou em silêncio
- não uma resposta ao que o amigo 
perguntou-
mas o pedido que deveríamos fazer

Nisso o chão se abriu
e no momento seguinte
estávamos eu e os três ali
dentro daquela sala
sem que eu pudesse gritar

meus dedos percorreram trêmulos
a borda da carteira
naqueles lugares secretos
onde se largam os chicletes
eternamente gastos e sem gosto
à procura de algum dispositivo
capaz de livrar-me de um
previsível espetáculo de execução
então comecei a falar

My favorite things

Aconteceu perto daqui
dentro do corpo, veio um vento quente
e as árvores do pensamento
desfolharam-se todas
era outono dentro de mim
enquanto eu olhava você
um avião cruzou o céu
e eu quis significar o avião
e eu quis significar o céu
olhei pra cima e fotografei o avião
                            fotografei o céu
dentro do avião - talvez - uma moça de azul
deixava de observar quem a observava
ansiosa para que o futuro chegasse logo
para se livrar da ideia inescapável
de todos morrerem ali
sem a mínima esperança
de mais um beijo ou mais um café
atrás dela, uma criança ajustava as cores de um cubo mágico
enquanto girava as peças, você me dizia coisas do tipo:
"Gosto de fechar os olhos e olhar pro sol!
Dá pra ver uma tela de sangue dentro do corpo. Você gosta?"
Não querendo interromper
o que estava acontecendo ali
John Coltrane disse que eu anotasse essa também

terça-feira, 22 de março de 2016

Carta aos Surdos para uso dos que Ouvem



 
O rabo de foguete voltou a transitar pelos céus
Há quem diga que sua carcaça é da cor preferida daquela atriz de cinema
Outros juram que tem a mesma cor do focinho de um cão de rua
Ouvimos um barulho, mas não sabemos bem de onde veio
Parece que começou naquele restaurante em Portugal
Enquanto os amigos escolhiam o que pedir para o jantar
A moça agarrou a faca mais pontuda
e desferiu golpes contra os próprios olhos
Fizeram um curativo improvisado com o guardanapo de seda
E todos saíram para dançar
Com os olhos cobertos, ela foi a que mais se divertiu
Depois teve aquele outro episódio
Televisionado em horário nobre
Mostrando todas as etapas de como se prepara um cordeiro
Escolher o mais tenro que ainda esteja amamentando
Separá-lo da mãe e depois é só matar, escalpelar, cozinhar e saborear
Os que comiam carne ficaram escandalizados
Como alguém poderia ser tão violento assim!
Marcharam em passeata até sua casa
Bateram em sua porta e ameaçaram arrombá-la
Esse assunto foi motivo de muitas conversas
Durante o almoço e o jantar
Enquanto degustavam um bife suculento
Não se falava em outra coisa
- Como alguém poderia ser tão violento assim!
- Um assassino como esse não pode transitar entre as pessoas normais
Pessoas normais com todos os dentes na boca
Pessoas normais com duas pernas e dois braços
Pessoas normais de acordo com o que a natureza diz
Pelo jeito que esse aí pensa, não parece uma pessoa normal
Aquele bêbado com chapéu-coco jamais será normal
Para se construir um país decente em que as pessoas vivam em paz 
é urgente assassinar esses anormais
Esses que querem avacalhar com a ordem familiar
Esses que querem adulterar o que a natureza determinou
Esses que querem tirar do macho o poder de conduzir a fêmea
Tudo começou a ficar assim com a chegada dos anormais
Antes havia silêncio e a ordem reinava em todas as ruas
Os bois eram mortos num abatedouro afastado da cidade
E a carne era toda acondicionada em bandejas de isopor
Os cortes bem arrumados nas prateleiras dos supermercados
Depois que as vísceras do bicho foram exibidas
Era urgente encontrar o assassino e quem ousasse defendê-lo
Os açougueiros mais antigos da cidade foram convocados em reunião
Só eles eram capazes de assassinar quem mostrasse o boi sendo morto
Afinal era uma prática secreta e destinada a alguns escolhidos
Com as mãos sujas de sangue protocolaram o tratado de paz
Quando o martelo erguido batesse sobre a mesa
Começariam as execuções

terça-feira, 8 de março de 2016

Águas de Ariel

Para Ariel Nobre

Ariel, agora, daqui desta janela
O céu é cinza e o vento forte anuncia chuvas
Não tenho mais medo de chuva, Ariel
Bebo a água das tempestades
E danço no jardim entre relâmpagos e trovões
Arco retesado a quem desejar te ferir

Somos a promessa de Athena
Nossos corpos, nossas regras:
Rachar a cabeça de Zeus
Extirpar costelas até abrandar
A pele dura do antigo homem
Declarar a existência híbrida e pura
Sonhar Ser; tornar-se Ser

Ao longe, o azul das montanhas celebram
O encanto de tua ousadia
Nesses tempos intranquilos
Em que corpos de mulheres
São silenciados e assassinados
Teu corpo, maior que a tarde,
Projeta-se além de estrelas e estradas
O novo menino parido de si
Inteiro e estonteante
Ariel, Ariel
Todas as águas murmuram teu nome

segunda-feira, 7 de março de 2016

for sale

Domingo à tarde a felicidade brilha
Falsa como um novo produto
Recém surgido no mercado
Tento não reparar, disfarço o olhar
Mas paro de modo involuntário
Nas pequenas imperfeiçoes
Tenho fascínio pelas pequenas imperfeições
E lamento tanto,
Ah, como eu lamento
Ter escolhido aquele poema maldito
Como o meu preferido
E ter recitado seus versos em ocasiões especiais
E também em situações banais
Como enquanto esperávamos o próximo ônibus
Numa estação suja e cheia de inconformados
Sem me dar conta de que ao fazer isso
Estava listando ao universo minha incapacidade
De acreditar em felicidades fabricadas

Mas agora que o jardim foi destroçado
Pela última tempestade de verão
Baniram-se as pequenas imperfeições
Tudo se reveste de um terrível encanto
Ligo a tevê e aumento o volume
Os notíciários anunciam crises e catástrofes
Você sorri e me puxa num abraço urgente
Seu gozo despudorado atravessa paredes
E ganha as ruas, chegando aos ouvidos
Dos que disputam ofertas imperdíveis
Em extensos corredores de centros comerciais





sábado, 5 de março de 2016

O que temos para o momento




"Desculpa não entendi. Sobre o que mesmo você estava falando?" Eu perguntei e ela me disse:
- Deixa pra lá. Não tem importância mesmo.
Eu tive que levantar para virar o disco e estava prestando atenção no que fazia. Ultimamente eu estava tentando, pelo menos tentando, prestar atenção no que faço. Uma coisa de cada vez. Deixa pra lá, não tem importância mesmo.E é quando a gente fica segurando uma frase na mão; como quando a gente tem um cigarro na mão e está ouvindo alguém dizer uma coisa importante ou ouvindo uma notícia importante e esquece de bater as cinzas. Uma coisa meio sem sincronia. Fiquei com a frase na mão. E era melhor que eu permanecesse em silêncio porque se falasse alguma coisa do tipo "Ah, por favor, me diga o que você disse. Eu estou escutando agora. Vamos, diga.", se eu dissesse isso, é claro que ela não ia me dizer mais nada. O que eu podia fazer, portanto, era falar sobre outra coisa. Começar um outro assunto, pra evitar, sabe, esse tipo de coisa, esse tipo de, vamos dizer, desentendimento. Eu estava com muita vontade de estabelecer uma comunicação. Todo mundo sabe o quanto é difícil isso de tentar estabelecer novamente o ritmo da frase que foi quebrada. E aí mudei de assunto. "Sabe que, às vezes, quando estou escutando alguém, sou atingida por um ponto de instabilidade que me faz perder a atenção". É, usei essa expressão. "Por exemplo, deixa eu me explicar melhor, uma mancha vermelha no olho, esse tipo de coisa que eu chamo de ponto de instabilidade. Pois então, quando eu identifico isso, esse tal ponto de instabilidade, eu passo a me concentrar nisso e não consigo mais prestar atenção no que estava ouvindo porque os meus pensamentos derivam pra esse outro lugar". E ela começou a alisar o pelo do gato como se só existisse no mundo três coisas: ela, o gato e sua vontade alisar o pelo do gato. Aquilo pra mim era um pequeno espetáculo. Ela, o gato e a vontade que ela estava de alisar o gato formaram um quadro perfeito e fiquei um pouco em silêncio. Eu não queria interferir nisso. Sei o quanto sou desastrada e o quanto posso interferir nesses quadros de perfeição em movimento que se formam diante do meu olhar. Não quis interferir. Mas é que ela ergueu os olhos e me perguntou: "O que você achou da peça?". O gato escapou das mãos dela e foi ser ele mesmo num outro canto da casa. Gatos não gostam de dividir atenção. "Gostei muito. Achei genial. E você?" Mas eu não estava nem aí pra resposta. Ela não gosta de teatro, eu sei. Ela fica desconfortável diante de pessoas que estão diante dela fingindo que não são elas mesmas e querendo que ela acredite nisso. Mas esperei. Esperei o que ela ia me dizer. E como ela demorou mais tempo do que minha ansiedade poderia suportar, fiz a besteira de antecipar a resposta dela: "Você não gostou?" Ah, isso foi um prato cheio pra ela me olhar com aquele olho de quem está querendo dizer: "Você é muito ansiosa, né?" Mas foi só um olhar. Só um olhar, que eu devolvi também com outro olhar do tipo: "Puxa, se você soubesse que a gente está perdendo tempo nesse lance de ficar falando sobre coisas, sobre peças, sobre qualquer coisa. A gente não deveria falar sobre nada. As palavras é o que existe de mais sufocante. Vamos ficar... um pouco em silêncio. Eu quero ficar um pouco em silêncio." Em vez disso, em vez de perceber o que meu olhar dizia, ela continuou:
- Os atores são ótimos. Mas eu não posso falar muito porque eu não entendo de teatro. Só acho que a peça não tem unidade nenhuma. São colagens com muitos clichês.
O gato olhou pra ela como se tivesse entendido melhor do que eu o que ela tinha acabado de dizer. Percebi isso e fiquei me achando muito incompetente para me comunicar com ela. Dez a zero pro gato. Quase que odiei o gato e o complô que os dois estavam formando ali contra mim. Mas era o gato dela. E estava na vida dela há muito mais tempo que eu. Na verdade, eu tinha acabado de chegar. E era delicado isso. Essa coisa de acabar de chegar na vida de alguém. A gente não recebe um roteiro. Já aconteceu tanta coisa. Porra, eu só queria que passasse logo essa parte toda de não saber o que fazer e essas palavras todas. Bom, eu gostei da peça. E não podia voltar atrás e dizer que eu não tinha gostado da peça. Seria ... muita covardia. Não queria que ela me achasse covarde. Mesmo que eu fosse covarde. Talvez até o gato tenha notado minha fragilidade. Então, só me restava partir pra briga. "Saia dessa de buscar começo, meio e fim. Colagem. É o que temos para o momento. Você é que monta a porra toda." O gato saltou do tapete para o sofá e ficou sentado fixando os olhos diretamente pra mim. Estávamos sentadas no tapete, e a visão que eu tinha era bem engraçada porque era como se o gato estivesse ao lado do ombro esquerdo dela pronto pra cochichar como um pequeno diabo as próximas frases que ela tinha pra me dizer. Ela se sentiu encorajada a continuar.
- Eu li O jogo da amarelinha. E tem unidade. 
"Sim. Muita." Quem era eu pra discordar do que ela estava dizendo. E mais ainda, quem era eu pra discordar do Julio Cortazar, um dos meus autores preferidos. Isso só podia ter sido ideia do gato. Golpe baixo. Mas eu não estava disposta a desistir, se ela continuasse. E ela continuou.
- Eu li Obra aberta, do Eco.
Ah, então é por aí que estamos avançando? O disco terminou outra vez e eu puxei a agulha com cuidado, retirei do prato, guardei na capa. Dedilhei os que estavam ali ao lado até achar o que seria apropriado para aquela situação. Come from the shadows, Joan Baez. "Pode ser esse?", mas antes disso, pra evitar o que havia acontecido antes, quando ela respondeu "Deixa pra lá...", eu disse pra ela que O jogo da amarelinha não valia como argumento. E que, "Ok, a peça poderia ter um esquema mal colado." Mas aí eu caí dentro de um campo de instabilidade quando coloquei o disco na vitrola, porque eu me lembrei do Clube da Serpente e do protagonista d´O jogo da amarelinha. E de como sempre que lia esse livro, eu achava esse cara adorável e filha da puta ao mesmo tempo, mas eu não toquei nesse assunto com ela. Voltei a falar sobre a peça. "A ideia da peça é essa mesmo. De ser uma colagem, você entende?" E então Joan Baez começou a quase rezar uma canção: Bangladesh... Bagladesh... Mas eu não podia me desviar, porque o gato já me encarava com um cinismo irresistível, pedindo pra que eu reagisse ou ele ia achar que eu não merecia mesmo aquela mulher. Mesmo assim, eu ainda pensei no quanto gostava mais da voz de Johnny Mitchell. Ela continuou com vontade de defender seu ponto vista, já que eu havia tocado nesse assunto.
- Eu entendo que não é mais necessário começo, meio e fim. 
Em vez de deixar que ela continuasse, o que eu fiz? Cortei a frase no meio com comentários sequenciados, como um vaudeville que invade o palco no momento mais denso do espetáculo: "A peça é difusa, tem algo de esquizo, gago. Mas e se essa era mesmo a pretensão do diretor? Tudo bem, tudo bem (Ah, ela é tão linda, tão linda com esse gato aí do lado, por que não ficamos simplesmente em silêncio? Por que eu fui escolher Joan Baez, que péssima escolha.), reconheço que tem mesmo algo de pretensioso na peça, isso de querer educar o público e mostrar uma ... mensagem edificante...." Nesse ponto da minha frase, o gato desistiu de novo e foi cuidar a vida dele num outro canto da casa. Ela manteve-se calma. Sorriu como se percebesse que eu estava nervosa e eu percebi que ela percebeu e fiquei tímida, porque fico mesmo tímida às vezes quando percebo que perceberam a minha tentativa de mostrar segurança. Um desastre. 
- No ato dramático (juro que ela usou essa expressão) dessa companhia, enfia-se qualquer experimentalismo e tá feita a dramaturgia. 
Confesso que achei interessante o que ela disse. Gostei da certeza com que ela segurou esse argumento. O pior é que esse lance de experimentalismo já havia me irritado em algumas tentativas desastrosas de produzir literatura. Se era bom, era excelente; mas se era ruim, era como um peixe ensaboado. Por mais que se quisesse provar que era ruim, havia sempre a possibilidade de alguém justificar o quanto era bom. Enfim, eu estava quase começando a concordar com ela. mas aí lembrei de outras peças com essa mesma... vamos dizer... pegada. E insisti. "Você viu aquela releitura d`A gaivota? Veio o ano passado pra cá. Ficou pouco tempo. 
- Vi sim. Gostei. Ainda que, burra, não tenha entendido tudo. Eu preciso ir mais ao teatro. O lance é que eu não gosto muito de teatro, eu já te disse isso. Mas talvez seja porque não entendo. 
"Não diga isso. Você está me chamando de burra quando diz que você é burra." Assim que falei isso, repeti a frase pra mim mesma pra ver se o que eu tinha dito não era uma coisa... sem sentido. E nesse momento Joan Baez começou a cantar Imagine e eu tive que interromper o assunto: "Posso pular essa música?". Ela fez um ok com a cabeça e prosseguiu com o assunto.
- Olha, é sério, eu não tenho estofo nenhum pra discutir teatro. Vou quase nada pro teatro e não me vanglorio não.
"Tudo bem, eu entendo o que você quer dizer, mas é que quando você vem com essa de que é burra e não entende nada sobre teatro e mesmo assim me dá vários argumentos de que a peça pode ser mesmo ruim eu fico sem saber o que dizer. E, olha, você pode ter razão. De repente a peça é mesmo ruim e eu não percebi. Então vamos começar de novo, Você sabe por que eu gostei da peça?. Vou te dizer. Eu fiquei feliz porque vi que as pessoas estavam gostando e pensei, caralho, as pessoas estão gostando dessa coisa fragmentada?! Isso eu também sei fazer! Pode ser que seja mesmo interessante isso. Pode ser que as pessoas estejam prontas pra gostar do que eu faço... 
- Pare com isso. Você escreve bem. E eu só fui ver a peça porque você me convenceu de que o diretor era muito bom. Os clichês, ah, talvez os clichês não tenham comprometido nada mesmo...
O ponto de instabilidade interferiu de novo. Mas não tinha a ver com nada do que estávamos falando. Eu estava mesmo era pensando nas palavras. Estava mesmo era pensando em como se perde tempo com isso de sobrecarregar demais o outro com mil questões como um barco à deriva; aliás, dois barcos em oceanos distintos e um mar de argumentos em volta e a tentativa de compreender e convencer e compreender. Na realidade, eram só fragmentos. Enquanto isso o gato ficou junto dela novamente. Ela começou novamente a acariciar o pelo dele. Ficamos em silêncio. Não havia necessidade de nenhuma palavra. E quando Johnny Mitchell começou a cantar, ela ergueu os olhos pra mim e sorriu e ficamos assim por um bom tempo. Era somente uma sensação. Uma ótima sensação. Nada mais.
E a peça. Bom... foda-se a peça. 

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

estudos para um narrador confuso



Uma única uma que olha uma que observa uma que vê uma que está parada em um lugar dela mesma a mesma ela que observa a si ela mesma ali a observar-se. 

Toda tempestade começa com um breve mover de folhas. 

Como qualquer uma que não se interessa mais pela questão crucial, a menos que, exato, a menos que, talvez a questão crucial a interesse, sim. A boca está fechada agora, mas passeia em volta dos lábios uma pequena aranha. Existe prazer nisso de sentir um inseto passear sobre a pele. Existe prazer em praticamente tudo. Talvez o prazer se esconda em algumas partes do corpo, mas a aranha não está pensando que provoca um prazer quando passeia em volta dos lábios pois é impossível a esse pequeno inseto pensar a forma inteira do ser sobre o qual passeia. Os pés tocam a pele percebendo somente aclives e declives - não identifica a boca como o lugar onde nascem os beijos. A aranha não compreende um beijo. No beijo as bocas se compreendem. Pensar enquanto beija é sair do sonho da aranha que imagina aquele canto dos lábios como uma pequena fonte. Pensar durante o beijo é perder-se dentro do próprio corpo sem escapatória. Então, o passeio da pequena aranha... Uma única olha-se agora diante do espelho. Aproxima o rosto o próprio rosto o rosto dela mesma e acompanha o percurso da aranha na curva dos lábios, sua insistência ingênua forçando passagem pelos cantos onde brota a saliva. Uma  a que olha abre a boca vagarosamente. Uma a que sente percebe que agora a loucura vem com uma permissão suave e sem constrangimento. Uma ela mesma e não a outra que a observa sendo também ela mesma mas na condição única de observadora sem julgar sem esperar nada do próximo segundo pois todas as horas reservam abismos como as folhas que se movem antes da tempestade. Uma ela mesma olha permitindo a entrada da pequena aranha no vale escuro da boca. Será que ela sairia dali? Não pretende ir a parte alguma, a aranha, e ela mesma também não pretende se afastar dali até que se defina um nome; por isso uma ela mesma está cindida: uma observa e sente enquanto a outra suporta que a aranha em seus passos de sombra mova-se em torno dos lábios, agora prestes a avançar pela entrada da boca. É um exercício bem simples pois não depende de ninguém. Agora a pequena aranha entra na boca. É preciso compreender que ela não estava lá antes. Não veio do teto num fio colado descendo com presteza enquanto ela a que passou a observar e sentir deitada no tapete da sala olhava para o teto e pensava que precisava de um nome. Não foi assim. O que vale é que agora as perninhas se mexem com dificuldade pela língua úmida. Uma a que observa ela mesma esse percurso da aranha se lembra de uma tarde em que uma luz se derramava sob a colcha da cama sobre a qual uma moça nua sorria. Uma ela mesma imagina uma moça nua deitada sobre a cama. Percebam, são duas naturezas distintas: a cama e a moça. No dia em que a cama chegou ali teve que ser carregada pelas escadas. Dois homens tiveram que empreender suas forças naquele sacrifício de carregar a cama por nove lances. Ás vezes eles paravam e limpavam o suor, olhavam-se quietos aguardando o próximo movimento como numa dança ingrata. Respiravam fundo e seguiam. Até chegar ao quarto e decidir-se o canto em que a cama iria ficar. Ali? Não, ali é melhor. Ali, então. Próxima à janela. E ao entardecer daquele mesmo dia, uma luz incidiu sobre a cama e permaneceu até o surgir da noite em que houve lua e o reflexo invadiu o quarto em um tom azul muito difícil de ser reproduzido artificialmente. A moça não. Ninguém carregou a moça até ali. A moça veio, despiu-se, deitou-se e sorriu. Uma ela mesma - a que observa e por alguns momentos distrai-se pensando na cama e na moça - percebe que a aranha agora avançou mais um pouco e já quase alcança a garganta provocando uma leve cócega. Nesse momento é que o vento fica mais forte agitando com violência as folhas espalhadas pelo chão. Nesse momento uma ela mesma cospe a aranha na pia. É assim. Desse exato modo, ela mesma uma precisava de um nome. E o nome ali, úmido e disforme sobre a porcelana da pia. O nome é Ana. O lume. O númem. Ossos, carne, linguagem e vontade. Antes de Ana, nenhum mundo. Somente o rosto de uma ela mesma colado à face das águas aguardando com todos os sentidos e as palmas das mãos e os pés a rótula dos joelhos e mais os buracos do corpo nervos garganta tudo envolvido. Tudo à espera. 

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

o céu revirado em dois

Triste como um gato na chuva
Essas ruas gritam nomes


É preciso esquecer esquecer esquecer
E o céu se revira em dois

Meus olhos e ouvidos cegos
Retirar do mundo
Imagens que perturbam o coração

Mas dentro do coração
E nas ruas
O céu revirado em dois


Nunca jamais talvez algum dia amanhã
As mãos da cantora me dizem
Enquanto a voz invade todo o espaço


Ao passo que logo cedo de manhã
Uma borboleta negra adentra o quarto